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22 de Abril de 2019
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    Educação no Brasil “soa como caos”: Beto Richa fez sua parte!

    Luiz Flávio Gomes, Professor de Direito do Ensino Superior
    Publicado por Luiz Flávio Gomes
    mês passado

    Esta foto, um escárnio como aquele do Sérgio Cabral em Paris e Mônaco (escândalo dos guardanapos), que bem revela a bandidagem das elites do poder, registrou o momento em que Beto Richa, em 2014, na piscina do hotel Delano em Miami, confraternizava sua vitória eleitoral com a nata da rapinagem empresarial acusada de desviar dinheiro das escolas para gastos de campanha, enriquecimento pessoal e desfrute brega da vida, que afinal é muito curta.

    O governo que não começa cumprindo ao pé da letra a Constituição com escola obrigatória e de qualidade para todos, até os 18 anos, em período integral (eu acrescentaria), não é governo, muito menos exemplo de patriotismo; é enganação (qualquer que seja sua linha ideológica: esquerda, centro, direita ou extrema-direita). E se rouba o dinheiro das escolas é uma enganação bandida.

    Educação não é só uma questão de progresso individual, senão também o eixo basilar do crescimento econômico (e da prosperidade da nação). Educação de péssima qualidade e baixo crescimento econômico são irmãos siameses. Todo mundo sabe disso, mas continuamos na mediocridade educacional.

    Vendo nossos números na educação, não há dúvida que ela “soa como caos”, que é um palíndromo. Palíndromos são palavras ou frases que podem ser lidas de frente para trás ou de trás para frente. É a mesma sequência de letras em qualquer sentido que se faça a leitura. O citado “soa como caos” é um exemplo. Faça o teste. Leia de trás para frente. Reviver, ódio doido, livre do poder vil, mega bobagem, a mala nada na lama, subi no ônibus etc. São incontáveis os palíndromos.

    Olhando para todos os que governam ou governaram o Brasil, a educação é um palíndromo em outro sentido: ela é indecente, desigual e abjeta, seja quando focada da esquerda para a direita, seja quando encarada da direita para a esquerda. Nem os governos de esquerda nem os de direita entenderam a relevância da educação, que é obrigação do Estado e da família.

    Em matéria de educação, governo, povo e partido no Brasil é praticamente tudo sem escola de qualidade; quando há escola, não se cultiva o estudo sério. Desde o ensino dos jesuítas é assim.

    A questão não é cantar o Hino Nacional (que tem apoio de 62,4%, conforme o Instituto Paraná Pesquisas), como papagaios, é entendê-lo (palavra por palavra). Norma da era petista já exigia o canto do hino uma vez por semana. Filmar crianças nas escolas é falta de estudo. Estudo da Constituição e do ECA, que proíbem isso.

    Exigir slogan de campanha eleitoral nas escolas é criar a Escola com Partido. Também a Constituição proíbe (art. 37). Num país onde todos descumprem a Constituição, o milagre é a existência de gente que acredita no futuro da nação (diria Renato Russo com o Legião Urbana).

    Nosso grave problema, como se vê, ou é a falta de escola ou é a falta de estudo nas escolas. No dia em que lutarmos todos pela escola com estudo, todos compreenderemos a falta de sentido da Escola sem Partido. Porque somos todos contra a doutrinação (incluindo a doutrinação e a lavagem cerebral anunciada pelo próprio MEC); o que queremos é estudo de qualidade universalizado, pelo menos o ensino básico (até os 18 anos).

    Os gastos com a educação no Brasil ($ 130 bilhões de reais por ano, quase 6% do PIB; estamos no grupo dos 20% que mais gastam em educação) são maiores que a média dos países ricos? São. Há muita corrupção também na educação? Sim. Tudo isso tem que ser devidamente apurado? Não há dúvida. Quem seria contra, senão os próprios bandidos.

    Mas o fundamental é como os gastos são feitos, qual tem sido a prioridade do ensino e o quanto de analfabetismo (formal ou funcional) nossas escolas produzem. É isso que temos que enfrentar.

    Pais que não foram para a escola ou que não estudaram quando passaram por ela não compreendem, justamente por falta de estudo, que o estudo sério, que gera aprendizagem válida para toda vida, garantindo emprego e bons salários, “é um trabalho muito cansativo, com um tirocínio particular próprio, não só intelectual, mas também muscular-nervoso: é um processo de adaptação, é um hábito adquirido com esforço, aborrecimento e até mesmo sofrimento” (C. Calligaris, Folha28/2/19).

    Quem diz que os presos deveriam trabalhar (logo se pensa em trabalhos viáveis dentro da prisão) deveriam também entender que o estudo é um trabalho muito duro, quando levado a sério. O afrouxamento do estudo, suas facilidades, aprovações sem provas, ou seja, sem méritos, escolas sem o ensino da ética, da disciplina e da moral, são resultado de políticas equivocadas, que confundem recreio com estudo.

    Escola com estudo sério, persistente, é isso que faz com que o ser humano não venda para o mercado de trabalho somente sua força muscular, corporal, dos braços e das pernas. É isso que o faz mais que um corpo, um espírito. A geração que não estuda pra valer não consegue transcender o destino dos seus pais que não foram para a escola ou que não estudaram com afinco.

    Não se aprende matemática, ciências, português, música, dança, futebol, línguas ou informática sem “responsabilidade no estudo”, na aprendizagem. O problema é que nossas escolas, em regra, não sendo de período integral, não vêm sendo programadas para estudar, tal como se vê nas experiências de vários países orientais (Coreia do Sul, Japão e tantas outras) e até mesmo no Brasil (Sobral, Espírito Santo etc.).

    Aprendemos rudimentarmente nossos direitos e focamos muito pouco nos nossos deveres. A começar pelo dever de estudar com intensidade. Escola com estudo sério é a solução. Qual “mão invisível” está impedindo que isso aconteça no Brasil?

    A foto que promoveu Richa ao estágio de escárnio foi fornecida pelo delator Maurício Fanini (ver Josias de Souza, UOL 9/3/19).

    Quer saber mais?

    Zeina Latif, Estadão 28/2/19, afirmou o seguinte:

    (i) nossa evasão escolar é muito elevada (15% dos jovens entre 15 e 17 anos estão fora da escola); (ii) apenas 37% dos jovens contam com formação profissional (principalmente das classes abastadas, cujas mães possuem 1,2 filho, contra 2,9 das mães da base da pirâmide); (iii) 23% dos jovens nem trabalham nem estudam; (iv) de cada 5 nascimentos, um é filho de adolescente (gravidez precoce); (v) é imprescindível a elevação da carga horária assim como a redução drástica do absenteísmo (dos alunos e dos professores); (vi) impõe-se a valorização da carreira de professor, cujos bônus devem ser atrelados ao desempenho dos alunos; (vii) os municípios com melhor performance devem receber mais verbas (eu acrescentaria); (viii) temos que copiar os bons exemplos brasileiros (Sobral, Espirito Santo etc.

    Maria Alie Setubal e Anna Helena Altenfelder (Folha 28/2/19) escreveram:

    (i) 49 milhões de alunos estão matriculados na educação básica; (ii) sem nenhum estudo exaustivo e na base da total improvisação anuncia-se a “homeschooling” (educação domiciliar); (iii) 2 milhões de crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estão fora da escola (com futuro seriamente comprometido); (iv) 2,7 milhões de menores de 18 anos estão em situação de trabalho infantil; (v) a educação escolar é complemento da educação familiar; (vi) a escola tem o papel de promover a construção da identidade social e do pertencimento, garantindo convivência com as diferenças; (vii) ela forma cidadãos que podem participar das esferas econômica, política, social e cultural.

    Vinicius Torres Freira (Folha 6/12/18) acrescenta:

    (i) quase 1/3 dos jovens de 15 a 17 anos não cursa o ensino médio na idade adequada; (ii) no quinto mais pobre o atraso passa de 45% (contra 10% no quinto mais rico); (iii) na educação pré-escolar 87% estão na escola (média na OCDE é de 88%); (iv) onde um morador da casa foi à universidade, 62% estão na escola; onde os moradores só fizeram ensino fundamental, 47% estão na escola; (v) apenas 36% dos alunos de escola pública vão para a universidade (contra 79% daqueles que fizeram escola privada): (vi) menos de 20% completam o ensino superior, na idade entre 25 e 34 anos (na OCDE, a média é de 37%); (vii) quem fez faculdade ganha 2,5 vezes o salário médio de quem fez apenas o ensino médio (na OCDE, 1,6 vez).

    João Batista Araújo, no Valor Econômico 22/2/19, sublinhou:

    (i) a cada ano, a repetência e evasão arrastam para a lama 6,3 milhões de indivíduos. A repetência penaliza 7,3% dos alunos nas séries iniciais, 11% nas séries finais e 10,5% no ensino médio, e é agravada pela evasão (2,1%, 5,4% e 11,2% respectivamente); (ii) desde 2009, o ritmo de melhoria da educação brasileira está se arrefecendo; (iii) apenas 16, 15 e 5% dos concluintes do 5º, 9º e 3º ano do ensino médio alcançam os níveis de 250, 300 e 350 pontos nos testes dessas séries. Esta nota corresponde aos níveis 5 e 6 na escala de proficiência em Matemática da Prova Brasil. Tem mais: em 107 municípios, mais de 90% dos alunos encontram-se abaixo da média nacional. Ou seja, poucos conseguem ficar acima da lama dos brumadinhos da educação; (iv) a produtividade de hoje é similar à observada em 1980. Em virtude desta estagnação, o trabalhador brasileiro tem ficado para trás na comparação internacional. Por exemplo, em 1980 a produtividade do trabalhador brasileiro era 25% da de um trabalhador norte-americano. Em 2010, já tinha sido reduzida a 16%, e essa tendência vem se acentuando; (v) mais de 10% dos alunos atingiram ao menos o nível 5 (de um total de 6) na prova de Ciências em 2015 (Alemanha, 10,6; Canada, 12,4; Finlândia, 14,3; Japão, 15,3), ao passo que no Brasil apenas 0,7% dos alunos atingem esse nível.

    Para arrematar, no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), de 2016, o Brasil ficou na 66ª posição em matemática, 63ª em ciências e 59ª em leitura. Em um total de 70 países, o Brasil apresentou queda de pontuação nas três áreas. Sobram excrescências, inclusive produzidas pelo MEC, falta estudo!

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