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6 de Maio de 2021

Carta aberta a Jair Bolsonaro

Luiz Flávio Gomes, Político
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 2 anos

Senhor Presidente,

Todos os países governados e dominados pelos setores mafiosos das elites do poder (máfias das propinas, máfias dos privilégios), sejam eles de esquerda, de centro ou de direita, ostentam, em diferentes graus, as seguintes características:

  1. Corrupção sistêmica e endêmica (o Brasil tem a vergonhosa posição 96 na Transparência Internacional); 2. Elevadíssima concentração de renda e desigualdades abissais (é o 9º país mais desigual do planeta); 3. Privilégios perversos exercidos pelas elites dirigentes às custas do restante da sociedade (renúncias fiscais de mais de 400 bilhões de reais anuais, muitas injustificadas);
  1. Estado nitidamente ineficiente (posição 79 no IDH); 5. Capitalismo de laços ou de compadrio (que asfixia a concorrência tanto no plano interno como a decorrente das cadeias globais); 6. Baixo crescimento econômico (média anual de 1,5% depois dos anos 80); 7. Pouco investimento no país por falta de confiança;
  1. Ausência de instituições que estimulem a iniciativa privada; 9. Desequilíbrio nas contas públicas (139 bilhões de déficit para 2019); 10. Endividamento patológico, de quase 80% do PIB (isso gera gastos exorbitantes com juros, mais de 400 bilhões por ano);
  1. País burocratizado; 12. Nenhum estímulo para novos empreendimentos; 13. Juros correntes na praça estratosféricos (51,6% anual para famílias e 20,3% para empresas – Folha 28/12/18); 14. Baixa produtividade (lanterna no ranking da FGV/Globo); 15. Justiça emperrada (mais de 120 milhões de processos no estoque); 16. Insegurança jurídica;
  1. Excesso e confusa tributação (excesso pelo que se entrega à população); 18. Péssimo ambiente para negócios; 19. Desemprego elevado (mais de 12 milhões de pessoas); 20. Pequena inserção internacional do país;
  1. Marginalização tecnológica e baixo investimento em inovação; 22. Opressão e violência difusa; 23. Má educação e total desprestígio dos professores (notas baixas no ranking Pisa); 24. Insegurança pública e menosprezo ao policial; 25. Falta de democracia eletiva limpa; 26. Ausência ou ineficácia das liberdades universais;
  1. Serviço público de péssima qualidade (saúde, transporte etc.); 28. Falta de igualdade de oportunidades; 29. Riscos na proteção à propriedade privada; 30. Repressão descontrolada, que gera alta letalidade inclusive de policiais (falta de controle da lei e da ordem);
  1. Falta de direitos políticos e de uma profunda reforma política; 32. Instituições extrativistas (excludentes, espoliatórias); 33. Políticas de extermínio dos consumidores, que leva à falência a indústria de produção e o comércio assim como à baixa arrecadação de impostos e 34. Falta de justiça social.

Releia a lista e verifique quantos dos 34 itens mencionados estão presentes no Brasil. Praticamente todos!

Brasil, Venezuela, Cuba, Nicarágua, Argentina, Coreia do Norte, Serra Leoa, Zimbábue, Egito e tantos outros, embora sejam países com histórias, ideologias e estruturas bem diferentes, formam parte dessa constelação de países que não contam com instituições asseguradoras de um reto desenvolvimento econômico e social orientado para a civilidade e a justiça.

A razão de esses países contarem com baixo crescimento econômico, crises e instabilidades contínuas e forte descrença dos investidores, além de uma massa medonha de pobres e miseráveis (no Brasil hoje temos 56 milhões de pessoas no “vale das lágrimas”), é a seguinte (como afirmam Acemoglu e Robinson, no livro Por que as nações fracassam):

Ou esses países não fizeram revoluções verdadeiramente transformadoras das elites dirigentes corruptas ou privilegiadas ou as fizeram mantendo na essência (não importa a coloração ideológica) a exploração e exclusão da população majoritária.

No Brasil, já se iniciou nossa revolução [para destruir a Nostra Máfia]?

Sérgio Buarque de Holanda, já em 1936 (data da primeira edição do livro Raízes de Brasil), admitia que sim e que a Abolição da escravidão (1888) foi uma data importante para esse processo. Mas se trata, de qualquer modo, de uma revolução “lenta, demorada”, com avanços e retrocessos.

Mas a vitória [final, dessa revolução] “nunca se consumará enquanto não se liquidem, por sua vez, os fundamentos personalistas e, por menos que o pareçam, aristocráticos, onde ainda assenta nossa vida social” (Raízes do Brasil).

São os setores mafiosos das elites do poder (aqueles que têm a grande parte da “velha política” nas suas folhas de pagamentos), precisamente, os mais “personalistas” (individualistas que só pensem neles) e “aristocráticos” (somente eles possuem valor e sabedoria, leia-se, distinção e lucidez, posto que o resto é desprezível).

Sem o aniquilamento desses “fundamentos” personalistas e aristocráticos continuaremos sendo um país “fracassado” em termos econômicos, políticos, jurídicos e sociais (indústria perdendo sua relevância, comércio fechando suas portas e grande parte da população desempregada ou vivendo na miséria).

Qual é o significado deste processo revolucionário em curso? Sérgio Buarque de Holanda (ob. cit.) responde:

“Se o processo revolucionário a que vamos assistindo, e cujas etapas mais importantes foram sugeridas nestas páginas [desde a Abolição, seguramente], tem um significado claro, será este o da dissolução lenta, posto que irrevogável, das sobrevivências arcaicas, que o nosso estatuto de país independente [Império, República, ditadura, democracia formal e populista] até hoje não conseguiu extirpar”.

Em suma, precisamos de uma revolução civilizatória que derrube “a velha ordem colonial e patriarcal”. Sérgio Buarque foi preciso nesse sentido:

“Em palavras mais precisas, somente através de um processo semelhante [de um processo revolucionário que dissolva as sobrevivências arcaicas] teremos finalmente revogada a velha ordem colonial e patriarcal, com todas as consequências morais, sociais e políticas que ela acarretou e continua a acarretar”.

Como vamos aniquilar essa velha ordem colonial e patriarcal? Por meio de quatro frentes civilizatórias (da Justiça, educacional e cultural, da política e do capitalismo de laços), que cuidaremos em outro artigo.

Como dizia Roberto Campos, “o capitalismo não fracassou na América Latina, apenas não deu o ar da graça”. Não é hora de mostrar fraqueza diante dos grupos mafiosos potentes. É hora de aprofundar com velocidade nossa revolução civilizatória! É por isso que lutarei no Parlamento brasileiro a partir de 1/2/19.

9 Comentários

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Belo artigo!

O desafio será desmontar a casta do Judiciário e do Legislativo!

Fala-se em cortar privilégios... Esses seriam os primeiros. E pra isso precisa CORAGEM! Não sei se esse ou outro governo teria.

Feito isso, será possível avançar em outros setores.

Sem isso, será como bater em bêbado! continuar lendo

Ilustre Professor

Parabéns pelo brilhantismo , e pela lembranças destas palavras :

Em suma, precisamos de uma revolução civilizatória que derrube “a velha ordem colonial e patriarcal”. Sérgio Buarque foi preciso nesse sentido.

Mas veja isso , pois teremos primeiramente que limpar o pequeno quórum , alojados em todos os setores Públicos .

Veja isso , apresentado e investigado por mim : https://www.facebook.com/rodrigoagarra.azevedo/videos/2089400381122174/?t=17 continuar lendo

Como tenho lido nos jornais, parece que nos próximos anos estaremos longe deste Brasil tão sonhado :-(educação coordenada por evangélicos e pitacos do filho do bolsonaro, metade dos ministros com ficha suja, 12 limousines blindadas?? pra que?? Acompanho o que o senhor escreve, sou uma brasileira comum, tenho 58 anos e acho que nunca me senti tão triste com este cenário de terror, de fake news, de abandono no nosso meio ambiente, jogaram fora o trabalho, direitos humanos... o Sr. tem mesmo uma grande missão! Proteger de injustiças 200 milhões de brasileiros. Muita saúde, lucidez e feliz ano novo! continuar lendo

O Brasil é um corpo doentio e os problemas relacionados são reflexos dessa doença.
Doença que nasceu no descobrimento, agravou-se na republica por nunca ter sido tratada.
Abusamos da saúde do Brasil forte e inexplorado que encontramos e o submetemos ao desgaste excessivo, imaginando que pela sua grandeza a tudo suportaria.
Nosso desleixo deixou crescer o mal da falta de patriotismo, que é a energia que coloca em pé nosso país.
Sem essa força, vimos surgir e se fortalecer o vírus da corrupção endêmica, e pelos sintomas imaginamos que uma imersão pela esquerda seria a cura. Assim, acabamos por quase matar nosso paciente.
Hoje, podemos ter descoberto um caminho, mas o tratamento será longo e sofrido.Os amargos remédios precisarão vir em altas doses antes que possamos imaginar o início de um processo fisioterapêutico.
Não podemos esperar milagres deste governo que se inicia.
Se a sensatez, a vontade aliada à honradez se fizerem presentes já poderemos vislumbrar vestígios de uma longa recuperação positiva.
Uma parte expressiva de nossa população ainda se deixará enganar pela facilidade dos falsos remédios e ainda decidirá mal nas urnas.
Muito a fazer, muito a fiscalizar, tudo a reconstruir.
Sem exageros nas expectativas mas confiantes, poderemos chegar ao resultado esperado.
Boa sorte Brasil. Com muita disposição ao trabalho. continuar lendo