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15 de Novembro de 2018

Corrupção e educação: preocupantes ausências no primeiro discurso.

Luiz Flávio Gomes, Professor de Direito do Ensino Superior
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 17 dias

Que prosperem a verdade, o emprego, o controle fiscal, o empreendedorismo e a liberdade. Que venha um governo constitucional e democrático, que respeitará as leis.

Tudo isso faz parte da esperança geral do povo brasileiro e está presente no primeiro discurso do presidente eleito, de 73 linhas, 7 parágrafos e 929 palavras.

Prometeu-se, ademais, um “governo decente” (louvável). Mas duas palavras essenciais, que simbolizam a luta do nosso movimento Quero um Brasil Ético, não apareceram na fala inaugural: corrupção e educação. Frustrante!

Jamais haverá governo decente sem educação de qualidade para todos em período integral (pelo menos até os 18 anos) e sem um duro ataque à corrupção sistêmica assim como ao capitalismo de compadrio, constituído de laços bandidos entre servidores públicos e agentes ou corporações do mercado privado.

Sem um contundente ataque à cleptocracia brasileira (cleptos = ladrão; cracia = governo; cleptocracia é o governo de ladrões públicos mancomunados com ladrões do mercado privado) estaremos condenados ao fracasso eterno.

Do candidato Haddad seria mesmo difícil esperar esse contundente ataque à corrupção em razão do histórico nebuloso das cúpulas do seu partido (PT). Do novo governo, que só foi eleito em virtude da ira dos eleitores contra a corrupção (ira que abateu o PT no Executivo assim como o PSDB e o MDB), espera-se algo muito diferente.

Que se preserve a autonomia do Ministério Público assim como a independência do Judiciário. Que a Polícia Federal não seja impedida de exercer suas funções investigativas. Que a mídia, os auditores fiscais e todas as demais instituições fiquem isentas de interferências indevidas.

Que funcione sem amarras um sistema eficaz de controles e contrapesos, aprimorando-se o profissionalismo dos agentes investigativos e da Justiça. Que os partidos políticos atingidos pelo tsunami das eleições de 2018 mudem suas organizações, adequando-se ao século 21.

Que se institua pela primeira vez no País um sistema de ensino de qualidade, para todos, em período integral, difundindo-se os valores éticos que sustentam as sociedades justas que não toleram de forma alguma a cleptocracia, constituída de governos bandidos protagonizados por agentes públicos corruptos assim como por empresas vampiras do mercado privado.

Que o governo “decente” de Bolsonaro não seja uma imitação sulamericana tropical dos populismos extravagantes de Viktor Orban na Hungria, de Rodrigo Duterte nas Filipinas e de Jimmy Morales na Guatemala.

“As vidas mais formosas são as que se situam dentro do modelo comum e humano, sem milagres nem extravagâncias” (Montaigne).

10 Comentários

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Rumo à máfia do fanatismo religioso loteando o Estado, eis a verdade. Rumo ao domínio completo da nação por banqueiros e fiéis cadelas dos cartéis nacionais e internacionais. Rumo ao controle e ao patrulhamento ideológico. continuar lendo

"Só foi eleito em virtude da ira dos eleitores contra a corrupção". Mais de 50 milhões de eleitores apertaram 17 nas urnas apenas por um sentimento passional? É desqualificar, adjetivar o voto e os eleitores de maneira rasa. Só olhar a votação do Partido que era um "ovo". Deixe o governo começar, trabalhar, governar. Analises com fulcro ideológico nesse momento só atrapalha . continuar lendo

Concordo amplamente, Núbia, com sua lúcida observação. A lição mais importante, a meu ver, dessas eleições foi o ânimo da maioria do eleitorado de dizer um rotundo “não” a Lula, a seu fantoche e à esquerda bolivariana corrupta e incompetente. O voto de 57 milhões de cidadãos em Jair Bolsonaro não significa, de modo algum, adesão automática ao fascismo de direita ou a qualquer outra disposição antidemocrática, como pretendem fazer crer as facções políticas derrotadas. O presidente eleito tem dado mostra de ter bem compreendido o sentimento popular que emergiu das urnas. Prova disso é, além de suas declarações no sentido de seguir plenamente a Constituição, a escolha do Juiz Sérgio Moro para o Pasta da Justiça, agora reforçada e alçada à categoria de superministério. É claro que não sairemos de maneira mágica do inferno para o paraíso. Ainda haveremos de transitar algum tempo pelo purgatório, mas, de toda maneira, parece que o País passou a ter a chance real de sair do lamaçal em que foi mergulhado pelo PT e demais defensores da “democracia de Nicolás Maduro” a fim de tomar um banho de decência na condução dos negócios públicos. continuar lendo

Cheio de esperança que não seja caso, mas o primeiro ato dele foi orar. E quem puxou a prece é um velho conhecido da cleptocracia. E qualquer discurso que põe deus acima de todos, abre espaço para se fazer qualquer coisa em nome de deus, inclusive roubar e manter as coisas do mesmo jeito.

O nosso novo presidente já está se aliando ao centrão, pois essa é a natureza do centrão e sem ele o Sr. Messias Bolsonaro, não fará nada, pois seu discurso de ódio impede que ele sequer converse com a oposição que será liderada pelo petistas, a quem ele disse que iria fuzilar.

O BBB da câmara (Bancada da Bala e Biblia) que irá compor quase 200 cadeiras em 2019, irá apoiar as medidas do presidente a um custo, assim como apoiou o impeachment, e tudo que o PT fez.

Novamente as elites, mudam as coisas para que tudo no fim fique a mesma coisa.

Mas ainda estou com e esperança e medo de que não seja o caso. continuar lendo

Esses comentários me fazem lembrar da série "esperança" de Millor Fernandes:
"O Brasil está condenado a esperança."
"O otimista não sabe o que o espera."
"O desespero eu aguento. O que me apavora é essa esperança."
"É melhor ser pessimista do que otimista. O pessimista fica feliz quando acerta e quando erra".
Não sei se há um pensamento coletivo que leve a encarismar-nos por certas personalidades da moda, mas nossas urnas apresentaram ao mundo o similar tupiniquim de Rodrigo Duterte, Erdogan, Putin e Trump.
Pilherias à parte, vejo no resultado desse pleito o "Brexit" de um povo obstinado e sobrevivente.
Nosso próximo Presidente foi eleito com pouco investimento e sem se aproveitar das facilidades do sistema eleitoral, com um discurso que recebeu a pecha de fascista, impopular, intolerante e retrógrado pela grande mídia.
Tudo isso, de pijama.
Ele pode ser exatamente o que nos disseram.
Ser incapaz de governar. Ter uma visão de mundo distópica, cujas promessas foram mal interpretadas, mas, inegavelmente, catalizou o furor das massas, corporificando o seu recado indômito.
Se a mídia ribombou o movimento de 2013 como acéfalo e dúbio, hoje, precisa reconhecer esse resultado atípico.
Não sei se estamos na aurora ou no crepúsculo. Mas, certamente, há uma transição em curso. continuar lendo

A corrupção é sintoma, e não a doença. Educação ajuda, mas não é garantia de coisa alguma.

Leis mais rígidas? Operação lava-jato? Autonomia dos órgãos constitucionais? Isso contribui, mas não soluciona o problema.

E o problema reside no próprio estado brasileiro. Um estado gigantesco, que se arvora a fazer tudo por todos. Que mantém uma pequena elite que vive às custas de todos - o ápex do funcionalismo público. Um estado que, por sua dimensão que não cabe sequer no orçamento, exala a corrupção por seus numerosos poros.

Sempre considerei Bolsonaro de uma primariedade abissal. Mas nas circunstâncias, soluções primárias se mostram muito mais eficazes que invencionismos arrojados.

Um governo decente é um prospecto infinitamente superior a um governo criativo. continuar lendo