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15 de Dezembro de 2018
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    Brazuela (sobre a “venezuelização” do Brasil)

    Luiz Flávio Gomes, Professor de Direito do Ensino Superior
    Publicado por Luiz Flávio Gomes
    há 7 meses

    1 – A greve dos caminhoneiros, que colapsou múltiplos serviços em todo território nacional, constitui mais uma evidência inequívoca de que existem dois caminhos para se alcançar a “venezuelização” de um País (ou seja, seu desmoronamento social): pelo domínio sanguinário de uma ditadura de esquerda (caso de Maduro, por exemplo) ou pelo comando estúpido de uma oligarquia corrupta, degenerada e parasitária (cuja ideologia única é o dinheiro, o ganho e o lucro em proveito próprio).

    2 – A riqueza gerada pela corrupção em favor dos donos corruptos e parasitários do poder não desencadeia em nós apenas indignação (sobretudo quando se considera que o Brasil é um dos dez países mais desiguais do mundo). Ela é também assassina, porque a dinheirama desviada (R$ 600 milhões por dia) faz muita falta para a saúde, educação, Justiça e segurança (que são as atividades cardeais do Estado, que o mundo do mercado obviamente não oferece para a população).

    3 – A canalização em massa do dinheiro público para os donos corruptos e parasitários do poder (aqui reside o patrimonialismo empresarial, que não se confunde com o estatal nem com o corporativo) comprova a usurpação e o apoderamento do Estado por uma oligarquia nefasta e perversa que só pensa na prosperidade dos seus interesses. O Estado se converteu em presa de um animal parasita (clube dos corruptos) que lhe suga diariamente todas as energias.

    4 – Esse modelo desastrado e desumano de governança, ancorado em uma tradição colonizadora cruel, escravagista e sanguinária, gera inevitavelmente baixo crescimento econômico e quase nenhum desenvolvimento humano. Tudo isso faz parte do fenômeno da “venezuelização” do País, que constitui uma ameaça permanente para o povo, que vive sob a percepção de um contínuo regresso social e econômico. O medo de se perder tudo que foi conquistado passa a ser um risco interminável por toda vida.

    5 – A “venezuelização” (desmoronamento das relações e dos tecidos sociais) tornou o Brasil extremamente vulnerável. Todas as sociedades são, em virtude da complexidade do funcionamento da economia com redes interdependentes, muito vulneráveis (H. Schwartsman). Considerando-se que o Brasil é regido por uma das oligarquias mais perversas do planeta, é evidente que essa vulnerabilidade aqui é maxi-elevada, o que agrava o medo permanente de se perder tudo (renda, salário, emprego, negócios, capacidade de consumo, propriedades, vida, oportunidades etc.).

    6 – Em 2016 a Consultoria Eurasia Group, diante do aprofundamento das crises políticas e econômicas, já apontava o Brasil como um dos dez maiores riscos geopolíticos do mundo. Crises contínuas geram caos, que podem desaguar em colapsos. Colapsos reiterados costumam ser causas de grandes comoções sociais, com consequências imprevisíveis. A corrupção sistêmica tornou o Brasil um risco geopolítico mundial.

    7 – Os poderes constituídos (Executivo, Legislativo e Judiciário) assim como as instituições (Governo, Congresso, Supremo, Democracia, Leis, Mídias etc.) acham-se preocupantemente desacreditados. A falta de credibilidade de um país (em processo de “venezuelização”) espanta investidores (internos e externos). Isso costuma resultar em miséria, pobreza e convulsões sociais.

    8 – Quando a falta de credibilidade se junta a uma aguda vulnerabilidade bem como às instabilidades reiteradas no campo da política e da economia o País se torna imprevisível. Esse é o Brasil de 2018, onde uma classe nababesca maligna (a dos donos corruptos do poder) vive do parasitismo depredador e sedentário, que atrofia a intelectualidade, dizimando sua capacidade de diálogo, de inovação, de criação, de sabedoria, de conhecimento e de percepção da realidade.

    9 – Governos sistemicamente corruptos, quando alcançam o nível do parasitismo sedentário, demoram para tomar decisões e normalmente se mostram incapazes de encontrar soluções em negociações complexas (na greve dos caminhoneiros isso ficou sobejamente comprovado).

    10 – Tudo isso afeta profundamente a percepção negativa da população sofrida, que se apavora cada vez mais com o risco de perder tudo que conquistou. Muitos brasileiros melhoraram de vida na primeira década deste século. Agora, com razão, diante de tanta corrupção e desordem, temem perder tudo.

    11 – O medo de perder tudo frequentemente leva o País a aceitar governantes populistas extremados. Essa tendência não faz parte da solução do problema. Temos que promover a faxina geral dos ladrões que comandam a nação, não há dúvida, mas isso sem cairmos em radicalismos demagogos. Do contrário viveremos sob o risco permanente de aniquilação total da nossa sociedade.

    Publicado originalmente no Estadão: http://política.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/brazuela/

    5 Comentários

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    Meu temor é de um cenário ainda pior.
    A Venezuela passa por um período de achaque democrático. Mas, ocupa uma posição geográfica privilegiada e um território relativamente pequeno, garantindo uma perspectiva muito boa de recuperação, mesmo que tenha de refazer toda sua estrutura de fomento.
    O Brasil é paquidérmico.
    Um país de dimensão continental tem regiões concorrentes mesmo internamente o que dificulta sobremaneira uma pauta de desenvolvimento nacional.
    Pegando um gancho nos últimos acontecimentos, por exemplo, o investimento em vias alternativas ao transporte rodoviário levará mais de 25 anos para ser implementado, seja pelo transporte ferroviário, aéreo ou naval e será visto como um ataque ao sistema rodoviário, mesmo que ninguém divirja da certeza de que o sistema rodoviário nunca poderá ser totalmente abandonado ou perderá importância uma vez que a carga necessariamente será transportada por rodovias em algum momento, do produtor ao consumidor final.
    Nós gostamos de imaginar o cenário em que o Brasil ocupará assento entre as nações desenvolvidas. Mas, estamos rumando a passos largos para a desindustrialização e desurbanização. Estamos involuindo como povo e como nação.
    Devemos compreender que o cenário futuro do Brasil é similar ao que se tem no Congo, no Níger e no Sudão do Sul.
    Nossos esforços para desmantelamento da edução, da segurança e da saúde pública, aliados a ausência de investimentos na produção de energia e da manutenção dos mananciais aquíferos tem promovido uma fuga de investimentos nos meios produtivos e perda de competitividade.
    A maior produção de riquezas está na atividade extrativista e na produção primária. Mas, sem água e sem energia essas fontes também se mostrarão improdutivas em breve.
    Não basta expulsar os cleptocrátas. Urge reverter esse desmantelamento. continuar lendo

    1 - A greve dos caminhoneiros demonstrou não uma "venezuelização" do Brasil, mas a fragilidade de nosso sistema logístico apoiado exclusivamente em rodovias.

    2 - A corrupção é um sintoma de uma doença - a hipertrofia do estado. É este estado enorme, com um um funcionalismo vasto e caro, o grande produtor das desigualdades, um distribuidor de renda às avessas. Gastamos - com Educação, por exemplo - por aluno o mesmo que a Alemanha. O problema não é falta de dinheiro. É uma mescla de administração irresponsável com a crença tola que o estado deve controlar a tudo e a todos.

    3 - O estado não "se converteu em presa de um animal parasita". Ele é um animal parasita. Tornou-se a partir do momento que deixou de atender às suas funções naturais, para se arvorar em tudo fazer. Assim o é desde a adoção da Constituição Besteirol. É algoz, não vítima.

    4 - Esse modelo "desastrado e desumano" de governança é o resultado natural de um estado hipertrofiado.

    5 - O país não está vulnerável. Ele está tomado por um câncer em metástase: o estado brasileiro. Nessas circunstâncias, até mesmo os parasitas reinantes tentam salvá-lo (eis que dele dependem). Os parasitas não-reinantes (aqueles que recebem 300% do teto constitucional e têm a audácia de reclamar), noutra mão, não demonstram a mesma perspicácia.

    6 - De novo, a corrupção é o sintoma, e não a doença. E é a doença que está nos matando. É a doença que está levando o estado brasileiro à falência.

    7 - Uns parasitas tentam salvar o hospedeiro, reduzindo a quantidade de nutrientes que (eles, parasitas) consomem. Outros reagem, e tentam convencer o hospedeiro que isto é ruim de todas as formas. E aqui está a crise. Mesmo quando (finalmente) um governo tenta reduzir o estado, o estado reage e conta com a simpatia dos parasitados.

    A Venezuela é aqui? Não, o Brasil é aqui. E o Estado Brasileiro consegue ser uma desgraça ao seu próprio modo.

    Enquanto nosso povo tiver a disposição de ver no estado uma entidade divina, crendo nele como um provedor supremo, responsável por tudo de bom e de ruim que acontece, de tudo que é necessário ou adequado, vamos continuar em nossas freqüentes crises. Como bem disse Roberto Campos, "O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito. O que ele nos pode dar é sempre menos do que nos pode tirar." continuar lendo

    Perfeito!

    Mas só um adendo: sobre a fragilidade do sistema logístico - por não termos trens - eu diria: Graças a Deus! Assim ainda temos um pouco de livre concorrência.

    Óbvio que Deus opera dentro do livre-arbítrio, então não foi ele quem nos condenou a não ter transporte ferroviário, ou seja, foi obra de outros. Dentre estes está incluso, por exemplo, JK que conseguiu interagir com três clássicos nacionais no momento de sua morte: Opala, Ciferal Dinossauro e Scania Jacaré!

    Mas se a matriz fosse ferroviária estaria na mão de algum "campeão nacional"...

    Para sentir, basta vermos a situação das linhas de ônibus que acabam sendo, por força constitucional, um monopólio na mão de alguns. continuar lendo

    Precisamente. Por sinal; não temos mais uma rede ferroviária precisamente graças a um campeão nacional. Em 1957, a rede ferroviária foi estatizada, com a criação da Rede Ferroviária Federal S/A.

    O Brasil construiu quase toda sua malha ferroviária sob mãos privadas. Várias empresas - começando pela Estrada de Ferro Mauá, em 1854. - abriram as brenhas inacessíveis do Brasil, apoiando-se na aquisição de terras devolutas e na expansão para o interior.

    Aí veio a estatização. E o fim da rede ferroviária.

    Conheci um cavalheiro que foi mecânico na Great Western Railway, antes e depois da estatização. Ele trabalhava com três auxiliares no galpão de reparos. Saiu o decreto de estatização; e eis que, na semana seguinte, descobriu que tinha mais 27 funcionários no galpão, recém-nomeados.

    A despeito do custo de manutenção de uma ferrovia ser relativamente baixo, e o custo do transporte ser significantemente menor, o estado tem uma capacidade impressionante de arruinar coisas. E assim, seguindo pelos lamaçais que eram nossas estradas, os caminhoneiros foram muito mais rápidos, baratos e eficientes que os trens. continuar lendo

    Como nos falta a educação e estudos sobre a política de nosso País. Com esta greve dos caminhoneiros podemos observar o quanto somos um povo desinformado, sem bom senso e não politizado. Os caminhoneiros pararam justamente para reivindicar os preços altos dos combustíveis e o povo sai correndo fazendo filas enormes nos postos pagando por um preço maior e ainda ficando horas na fila sem reclamar, não aderindo ao movimento, não dando força aqueles os quais estão batalhando para que alguma mudança possa acontecer neste sentido. Como vai acontecer alguma mudança para melhor se o povo não sabe como fazer ? continuar lendo