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24 de Agosto de 2019

Reino Unido fora da UE. Temos também que nos separar…

Luiz Flávio Gomes, Político
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 3 anos

Síntese:

(1) A quase totalidade dos europeus (tanto quanto os brasileiros nesse momento de crises duradouras) está profundamente descontente e iracunda com o rebaixamento da sua qualidade de vida;

(2) Uma série de fatores explica a decadência da qualidade de vida das pessoas e, dentre eles, sem sobra de dúvida, está a kleptocracia (roubalheira do dinheiro público);

(3) Países nessa situação de crise econômica, corrupção e desesperança são fecundos para a festa e prosperidade dos demagogos e populistas;

(4) O Brexit (saída do Reino Unido da UE em 2016) é a queda invertida do Muro de Berlim, de 1989;

(5) Platão estava parcialmente certo (votamos muitas vezes com a emoção);

(6) No novo paradigma (político e econômico) é abissal a distância dos vencedores frente aos perdedores;

(7) É nitroglicerina pura (no eleitorado) a combinação de rebaixamento da qualidade de vida, desemprego ou sub-salário, descenso no status social, a queda dos serviços públicos aos necessitados, crise econômica, corrupção, indignação, desesperança, empoderamento da população pelas redes sociais e retóricas populistas xamânicas (que prometem o paraíso na Terra). Não há União nem governo que resiste a tudo isso;

(8) Temos que nos separar urgentemente dos kleptocratas, aprofundando o movimento iniciado pela Lava Jato; para isso a sociedade civil tem que se mobilizar (ou nosso futuro será o previsível, não o esperançoso).

Veja mais detalhes:

A quase totalidade dos europeus (tanto quanto os brasileiros nesse momento de crises duradouras) está profundamente descontente e iracunda com o rebaixamento da sua qualidade de vida. Como é fácil notar, isso também é precisamente o que está ocorrendo com 3,1 milhões de famílias brasileiras:

  • “Entre 2006 e 2012, 3,3 milhões de famílias subiram um degrau, das classes D e E para a classe C, segundo Tendências Consultoria Integrada – Estadão; teviram acesso a produtos e serviços que antes não cabiam no seu bolso, como plano de saúde, ensino superior e carro zero. Agora, afetadas pelo aumento do desemprego e da inflação, essas famílias começam a fazer o caminho de volta. De 2015 a 2017, 3,1 milhões de famílias da classe C, ou cerca de 10 milhões de pessoas, devem cair e engordar a classe D/E, aponta o estudo. “A mobilidade que houve em sete anos (de 2006 a 2012) deve ser praticamente anulada em três (de 2015 a 2017). Estamos vivendo, infelizmente, o advento da ex-nova classe C”, diz o economista Adriano Pitoli, sócio da consultoria e responsável pelo estudo” (Estadão).

Uma série de fatores explica a decadência da qualidade de vida das pessoas e, dentre eles, sem sobra de dúvida, está a kleptocracia (promiscuidade entre agentes públicos e privados para gerar enriquecimento corrupto ou politicamente favorecido a alguns privilegiados). No Brasil essa kleptocracia, finalmente, está sendo investigada, processada e condenada pela Lava Jato (com fechamento de várias empresas, perda de milhares de postos de trabalho, falências de empresários etc.). A corrupção, assim como o enriquecimento favorecido direcionado a poucos (aos bem relacionados e posicionados dentro do Estado), concentra o dinheiro público nas mãos de poucas pessoas, prejudicando a criação de infraestrutura, escolas, hospitais, planos de crescimento da empregabilidade, assistência ao desempregado etc. Assim funcionam as kleptocracias, que são responsáveis (em grande medida) pelo subdesenvolvimento do país.

Países nessa situação de crise econômica, corrupção e desesperança são fecundos para a festa e prosperidade dos demagogos e populistas. Hobbes inventou o Estado Moderno. Stuart Mill agregou-lhe a liberdade individual. Beatrice Webb criou o bem-estar para a maioria, hoje sob contestação. A síntese de tudo isso (4º modelo de Estado) ainda não foi inventada (ver Micklethwait e Wooldridge, A quarta revolução). Daí nossos desencontros. E. Morin acha que ainda estamos da Idade do Ferro (século XII a. C.) em termos planetários (Hacia dónde va el mundo?, p. 51). Enquanto não descoberto o justo modelo de sociedade, de economia e de Estado, reinam os demagogos, que sabem explorar a emotividade e a ira da população, que sabem jogar a indignação contra a temperança, a retórica xamânica (sobrenatural) sobre a retórica do ou da realista que busca solução razoável para os problemas (ver Víctor Lapuente, El retorno de los chamanes, p. 22). Os populistas demagogos (que são fortes perante a população) são fontes de imensa insegurança tanto para o Mercado como para o País.

O Reino Unido votou pela separação da União Europeia – UE (52% contra 48%) porque seus habitantes (majoritariamente) estão descrentes, desiludidos com a situação política e econômica vigentes. Sabemos que onde falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão. São incalculáveis os benefícios (tem seu lado positivo) assim como os danos sociais atuais gerados pela política e pelo mercado.

Como um todo, o planeta melhorou muito (Andrew Carnegie: “Os pobres usufruem daquilo que antes os ricos não podiam ter”). A Europa, particularmente, melhorou extraordinariamente nos 30 anos gloriosos do Estado de Bem-Estar Social – Welfare State -, de 1945-1975 – criado para combater o comunismo. Mas ninguém quer perder (ou rebaixar) a qualidade de vida.

O Brexit (saída do Reino Unido da UE em 2016) é a queda invertida do Muro de Berlim, de 1989. A vitória da democracia liberal (do chamado livre mercado) incrementou a globalização (desde 1989). A vitória do Brexit (2016) faz movimento contrário (afastamento do modelo de negócios da UE). É o fim da narrativa do “fim da história” de Francis Fukuyama. O mundo prossegue. E o Reino Unido deu o alarme (daí a reação de algumas lideranças de que algo deve ser modificado na UE).

A advertência de Platão (A República), bem compreendida, poderá nos ajudar. Seu medo era de que “as massas fossem movidas antes pela emoção do que pela razão, antes pelos interesses imediatistas do que pela sabedoria duradoura”. O Reino Unido votou pela emoção (que foi explorada ex abundantia pelos políticos xenófobos populistas). Quanto aos interesses imediatistas, isso é coisa da natureza humana (todos somos assim). Tanto as massas (de todas as classes sociais) como as elites e oligarquias são assim.

A UE quer fazer negócios, promover o bem-estar das empresas, das finanças, dos investidores, dos mercados, a livre circulação das pessoas e dos consumidores (muito bem: está cuidando dos seus interesses imediatistas). O povo quer alimentação, proteção à família, moradia, trabalho com salário digno, educação, aposentadoria, segurança e alguns prazeres (incluindo o de consumir). Esses são seus interesses imediatistas. O centro da discórdia, no fundo, é muito mais prosaico do que se possa imaginar. Todo mundo tem seus interesses imediatistas (que foram escalonados por Maslow, subindo desde as necessidades fisiológicas até à autorrealização). Na hora dos interesses imediatistas poucos são os que querem saber de “sabedoria duradoura”.

Desde os anos 80 quatro mudanças radicais aconteceram e sacudiram o mundo: (1) alterações profundas nas relações econômicas (novo modelo econômico, privatizante, que desencadeou o começo do fim do Estado de Bem-Estar Social, que havia sido desenvolvido por Beatrice Webb no princípio do século XX), (2) globalização das comunicações e do mercado (sobretudo no mundo ocidental), (3) revolução tecnológica digital e (4) fortalecimento, internacionalização e hegemonia do poder financeiro.

Tudo isso gerou, dentre outras, duas consequências: (a) a precarização e a instabilidade no mercado de trabalho (desemprego, subemprego, sub-salários etc.); (b) uma aceleração imensa na concentração da riqueza mundial (com intensificação das desigualdades) – (ver Stiglitz, La gran brecha; Piketti, O Capital etc.), agravada pela evasão de impostos e alocação da riqueza em paraísos fiscais (o que reduz a capacidade financeira dos Estados).

No novo paradigma (político e econômico) é abissal a distância dos vencedores frente aos perdedores. O Reino Unido deu esse recado. O assunto está tão preocupante, que Stiglitz narra no livro citado que os ganhadores estão temendo a Síndrome da Maria Antonieta guilhotinada.

É nitroglicerina pura (no eleitorado) a combinação de: (1) rebaixamento da qualidade de vida + (2) desemprego ou sub-salário (com a excedência da mão-de-obra, livre circulação e migração dos trabalhadores na Europa, empresas que saem para buscar mão-de-obra barata em outros países ou continentes, difusão dos robôs etc.) + (3) descenso no status social + (4) a queda dos serviços públicos aos necessitados + (5) crise econômica + (6) corrupção (pouca no Reino Unido, mas existe) + (7) austeridade econômica (austericídio) + (8) indignação + (9) desesperança + (10) empoderamento da população pelas redes sociais + (11) retóricas populistas xamânicas (que prometem o paraíso na Terra).

Não há União nem governo que resista a tudo isso quando todos ou muitos desses fatores acontecem concomitantemente. Tudo isso explica o “não” da população majoritária do Reino Unido (ainda que as consequências sejam mais nefastas que benéficas, aparentemente). Foi uma resposta irada (mais emoção, que razão, diria Platão). Mas é justamente essa ira que está presente agora na cabeça dos brasileiros (sobretudo depois das revelações da Lava Jato). Daí o questionamento: a quem ou ao que diremos nós brasileiros “não”? Desde logo, penso que devemos nos separar de todos aqueles que estão fazendo fortunas com o modelo kleptocrata de sociedade (que enriquece alguns com o dinheiro público, que é de todos, seja por meio da corrupção, seja por meio dos privilégios politicamente favorecidos). A Lava Jato não pode parar e a sociedade civil tem que se mobilizar (para exigir uma reforma política profunda, por exemplo), ou pagará mais caro ainda o efeito da sua inércia.

Enquanto o digamos 1% dos kleptocratas estão discutindo – com o dinheiro público no bolso – qual será o modelo do seu próximo avião, para qual paraíso fiscal é mais seguro mandar o dinheiro surrupiado no Brasil, qual isenção fiscal exigir do Estado, quanto de renúncia fiscal irão conseguir este ano, como estancar a Lava Jato, que medidas devem ser tomadas para se assegurar o sigilo bancário, qual Ilha fiscal não oferece riscos para guardar o dinheiro pilhado, em qual país será adquirida a próxima cobertura, qual helicóptero será comprado, quais políticos serão “financiados” etc., o cidadão corrente está preocupado com vaga na escola pública para seu filho, a transferência do filho da escola privada para a pública, o que fazer quando alguém na família fica doente, como será a aposentadoria, quanto de instabilidade existe no seu emprego, como conseguir uma moradia, como conviver com a insuportável insegurança pública, como viver com menos alimentos do que o de costume etc.

A diferença de preocupações é nítida nos dois grupos (basta olhar a escala de Maslow): enquanto alguns pensam apenas nas variáveis inferiores da fisiologia (alimentos, por exemplo) e da segurança (moradia, segurança pública, saúde, educação etc.), outros cuidam das relações de amizade, do reconhecimento e da autorrealização. Nos países kleptocratas o dinheiro público arrecadado sobra para o 1% (oligarquias e elites) e faz muita falta para as carências mais básicas do país e dos 99%. A questão, então, é perguntar: em que tipo de sociedade nós queremos viver?

22 Comentários

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Quer dizer que o Estado do Bem-Estar Social gera descontentamento na Europa e está fracassando por causa de privatizações? Um tanto quanto controverso. A maioria dos países Europeus atingiu o ápice econômico com o Liberalismo, e não com o Estado do Bem-Estar econômico. Países como a Suécia eram pobres no século XIX e tornaram-se ricos até a metade do século XX graças ao liberalismo, chegando a ser uma das maiores economias do mundo (algo que há algum tempo deixou de ser, desde que adotou o modelo do Estado do Bem-Estar Social).

Reino Unido não saiu da UE por causa de descontentamento com a economia, mas por causa das imposições. A ideia de universalidade fracassou. Países têm culturas diferentes, pensam de forma diferente. Ninguém em sã consciência fica subjugado a um organismo internacional que, no fim, não foi eleito. continuar lendo

Os fatores que levaram ao descontentamento foram diversos.
Na verdade, ainda impera o sentimento da raça e da patria, que é seletivo e fala mais alto. continuar lendo

Também acho, Hyago.
Apesar de o autor identificar alguns pontos importantes, continua se equivocando em outros, muito mais por ideologia do que propriamente por verificação de dados do mundo real.
Quase todos os analistas já indicavam que provavelmente o Reino Unido perderá, do ponto de vista econômico, deixando o bloco. Aliás este é um dos assuntos que mais gera consenso entre economistas, que o livre comércio é melhor do que o protecionismo - algo que o liberalismo econômico reiteradamente defende.
Ocorre que, mesmo reconhecendo que há custo (muito embora não se saiba exatamente quanto) muitos britânicos não quiseram mais se subjugar a leis formadas por pessoas que nem ao menos elegeram. Por burocratas em Bruxelas que não se preocupam com o dia a dia das pessoas e querem passar sua pauta ideológica de qualquer forma.
Por exemplo quanto ao relativismo cultural. É absurdo que os britânicos tivessem dificuldade para condenar legalmente casamentos de crianças porque isso é comum na cultura de imigrantes do Paquistão ou da Índia, sob a égide de que isso seria impositivo, seria eurocêntrico, seria racista ou opressor.
Esse tipo de situação exdrúxula empurrou muitos britânicos para que resolvessem, mesmo com custos, deixar o bloco.
Alguns autores já abordavam estes temas há anos, como o Roger Scruton e o Theodore Dalrymple. continuar lendo

Hyago, não é difícil entender esta onda de privatizações do Brasil. Somos explorados em quase toda cadeia produtiva (Minerais principalmente) com isenção de ICMS para grandes grupos que continuam á explorar com contratos de 30 anos.Estamos diante de um quadro dantesco de perdermos nossa soberania colocando em risco até mesmo nossa sobrevivência.Faça uma breve pesquisa e veja quem são membros das empresas que exploram nosso precioso minério que não renova como petróleo.Soberania = Sociedade justa Menos desigual = Educação = Saúde e Segurança. e por fim qualidade de vida para á sociedade.Notaram que nenhuma mídia fala sobre á auditoria das dívidas públicas? Estranho é não verificar comentários de diversos articulistas que parece não gostar deste assunto tão tenebroso e de estrema importância para todos os Brasileiros. continuar lendo

Na verdade, a Suécia, os outros países nórdicos e boa parte dos países europeus aderiu ao Estado de Bem-Estar social após a Segunda Guerra Mundial exatamente pelo descontentamento com as políticas liberais e também devido à grande depressão de 1929. O Estado de Bem-Estar social foi o que provocou a recuperação de muitos países europeus no período e inclusive foi o que gerou o amplo bem estar da população, devido à priorização de políticas sociais, enquanto que as políticas liberais não priorizam esse tipo de ação. A alta qualidade de vida nos países nórdicos se mantém, em grande parte, porque se mantém o Estado de Bem-Estar. Como é possível crer que vive bem uma população cujo país possui economia de alta rentabilidade mas não consegue devolver esta lucratividade em ações concretas de políticas públicas? Não basta um país ser rico, é necessário que ele saiba aplicar bem sua riqueza. Não basta ter um grande tesouro acumulado, se a população não consegue suprir suas necessidades somente com seu salário e acaba por ficar desamparada, já que num Estado Liberal a política social tem ações pífias.
Bom exemplo da efetividade desse modelo de Estado de Bem-Estar é a Noruega. continuar lendo

Sobre a economia dos países nórdicos:
http://spotniks.com/7-fatos-que-contradizem-tudo-que-voce-acreditava-sobreasuecia/
http://www.libertarianismo.org/index.php/artigos/são-paises-nordicos-socialistas/
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=632
...
Dado curioso: salário médio de um sueco na Suécia: $ 36.600 (anuais); Salário médio dos suecos nos EUA: $ 56.900 (anuais). (Williamson,Kevin D. - The Politically Incorrect Guide to Socialism - 2011, Regnery) continuar lendo

Uma coisa é querer e outra, muito diferente é ter a capacidade de fazer acontecer.
Está nos faltando as duas.
O povo quer trabalhar, receber e consumir.
A cleptocracia quer o mesmo, só que em outro nível de hierarquia.
Os países melhores estruturados da Europa, e isso era carta marcada, se ressentiram quando perceberam que estariam se nivelando por baixo.
Em acordo de desiguais alguém precisa perder para que outros ganhem. Não fosse agora, seria depois mas seria.
A vitória apertada simboliza claramente que quem perdeu feio foi o consenso e isso simboliza que não se soube fazer.
O objetivo superou muito a capacidade ou seja, ainda não é o momento, essa não é a forma.
O Brasil paga o preço do subdesenvolvimento por seu gigantismo, por suas diferenças regionais, que cria cleptocratas aos milhares em uma velocidade e voracidade maior do que possamos combater.
Unir povos com estruturas, culturas, riquezas, objetivos e ideologias desiguais em uma única visão de crescimento não parece uma tarefa fácil.
Cresceríamos todos melhores e mais se o fizéssemos na individualidade, pois seríamos mais objetivos.
Esse fato pode levar ao fim o atual modelo da UE e com toda a razão.
Dificulta ao Brasil, dificultará para a Europa.
Talvez um modelo com maior autonomia dos estados. Talvez menor concentração de poder político inclusive permitindo as diferentes ideologias.
Precisamos de outros caminhos.
Este, já sabemos onde vai dar e já sabemos que não é lá que desejamos chegar.
Mas é melhor levantar cedo e por os pés na estrada, porque os pretensos donos do país estão construindo porteiras. continuar lendo

Uma das maiores causas das crises é a ingenuidade de acreditar que amor e boa intenção geram condições por si mesmos. Ao contrário, é necessário trabalho duro para gerar as condições para um estado de bem estar social. E é necessária a continuidade do trabalho duro para mante-lo. Os países normalmente citados como socialistas são extremamente capitalistas na maneira como lucram no comércio mundial de produtos e serviços. Não têm nenhum problema em usar o capitalismo para sustentar o seu estado do bem estar social.
Achar que Suécia e outros países nórdicos tornaram-se desenvolvidos e ricos por adotarem o estado do bem estar social agride os fatos e a lógica.
O estado do bem estar social somente se tornou uma opção (sabiamente escolhida) na medida em as condições foram construídas. Trabalho e educação certamente contribuíram muito, mas uma população relativamente pequena também foi um fator decisivo. Um outro fator, menos elogioso, foi a capacidade de muitos desses países aproveitarem-se de posições vantajosas na economia mundial para transferir riquezas do terceiro mundo para suas populações.
Entretanto, mesmo com condições
O professor corretamente apontou que o progresso feito por dezenas de milhões de brasileiros ao longo de 7 anos está sendo perdido em 3. Mas erra ao atribuir fundamentalmente à kleptocracia a responsabilidade por isso. Não que a corrupção deva ser menosprezada, longe disso. Mas a grande causa desse retrocesso é a gestão econômica e fiscal equivocada, principalmente por razões ideológicas.
Mesmo quando confrontados com o fato inquestionável de terem gasto irresponsavelmente além dos limites, o argumento essencial é: "não podemos deixar de gastar com os programas sociais".
Esse argumento trai a ideologia de que absolutamente tudo, inclusive a inviabilidade econômica, é válido para cumprir uma agenda social. A lógica e a simploriedade dessa argumentação é equivalente à de chefes tribais africanos e adolescentes inconsequentes, afirmando que AIDS não acontece no sexo feito com amor.
A base (i) lógica da argumentação é que a justiça da intenção é mais poderosa do que a física da doença ou a matemática das contas públicas.
Ao contrário do que análises poéticas de uma UE gloriosamente optando pelo estado do bem estar social, a realidade tem sido que TODOS os países que concederam excelentes benefícios aos seus cidadãos estão sendo confrontados com a inviabilidade de mante-los. Por essa razão, estão tendo que convencer as suas populações de que não existem direitos adquiridos eternos.
Direitos têm de ser conquistados e pagos, dia após dia.
Mesmo sociedades que pagam um nível extorsivo de impostos não conseguem manter indefinidamente um nível irrealista de benefícios.
A situação brasileira é semelhante: poderíamos ter investido intensamente na produtividade da nossa indústria E DA NOSSA MÁQUINA PÚBLICA. Deveríamos ter implementado a meritocracia entre os nossos servidores públicos.
Cristovam Buarque, um dos únicos políticos que ainda admiro e respeito, corretamente critica o desvio do seu programa pelo governo Lula, o atual Bolsa Família. Enquanto o seu programa original - o Bolsa Escola - recompensava o estudo, o Bolsa Família passou a recompensar o ser pobre.
O conceito do Bolsa Escola era capacitar os jovens para tornarem-se auto-suficientes ao final dos estudos. Na visão de Cristovam, o conceito do Bolsa Família atrela o benefício ao insucesso e não prevê uma saída do programa.
Houvesse Dilma condicionado a expansão dos benefícios sociais à saúde das contas públicas, o país não estaria mergulhado na crise atual.
Provavelmente a maioria da população teria progredido menos do que progrediu naquele período, mas o progresso seria sólido e sustentável.
Houvesse Dilma investido no aumento da produtividade da máquina pública e nas condições de competitividade da nossa economia, estaríamos crescendo como tantos outros países à nossa volta.
Houvesse Dilma tratado com seriedade o controle da inflação, teríamos hoje taxas de juros mais razoáveis e incentivadoras da economia.
Mais uma vez, não há como minimizar o efeito trágico da kleptocracia. Mas os anos que pareceram tão bons para a economia e para o progresso social foram conseguidos apesar dessa kleptocracia. continuar lendo

Muito bom, Daniel continuar lendo

Caro professor, simplesmente não existe “sabedoria duradoura” em um mundo cada vez mais sujeito a incertezas e surpresas. A Inglaterra tem 500 anos de democracia e 1000 anos de civilização, dificilmente se ajustaria a decisões monocráticas de um comitê que não os representa. Torço para que a França e a Alemanha também se dignem a fazer plebiscito para saber o que pensa a população...aí, então será o fim da UE. continuar lendo

França e Itália devem ser os próximos. Duvido muito que Alemanha opte por sair do bloco, afinal, é o país mais forte da UE e praticamente comanda as decisões. continuar lendo

Olá Prof. Luis Flávio, concordo plenamente com seu texto, parabéns, conteúdo de alto nível.
Apenas gostaria de acrescentar que a "kleptocracia", pela grande quantidade de países corruptos,no mundo, já se torna quase uma sociedade paralela, através do mercado negro, suborno, mentira, além do mercado humano e trabalho infantil, que combina com a desfaçatez, artimanha e trapaça, para vender facilidades ao povo sofrido da localidade. continuar lendo