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22 de Setembro de 2019

O que tem a ver o massacre de Paris e a lei do aborto de Eduardo Cunha?

Luiz Flávio Gomes, Político
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 4 anos

Qual o eixo comum do mal-estar da civilização (Freud)?

O que existe em comum entre o Estado Islâmico (que assumiu a autoria dos ataques em Paris) e a lei de Eduardo Cunha, que estaria na iminência de ser aprovada, que dificulta o aborto em caso de estupro? O que tem a ver a homofobia, o racismo e o machismo no Brasil e os partidos ou movimentos ultradireitistas europeus (Frente Nacional na França, Liga Norte e Força Itália de Berlusconi, Bloco Flamenco na Bélgica, Partido Liberal Austríaco, Partido para a Liberdade na Holanda, União Democrática do Centro na Suíça etc., que defendem o separatismo, o nacionalismo, o racismo, a xenofobia, homofobia, criminalização dos imigrantes etc.)?

Ligando coisas aparentemente desconexa

O que tem a ver as execuções sumárias frequentes dos jovens negros no Brasil com a xenofobia europeia? O que cimenta tudo isso? É a visão populista do mundo (como veremos em seguida).

Visão populista do mundo

Em tudo o que acaba de ser descrito reside o radicalismo, o unilateralismo e o uniformismo de uma específica visão de mundo. Para a visão extremada ou populista do mundo, [1] a sociedade é considerada como um organismo natural (sociedade orgânica), como se fosse um corpo humano, cujos órgãos devem funcionar (todos) para o bem da saúde e da preservação do todo indivisível e indestrutível.

Indivíduos sem individualidade

Dentro dessa visão de mundo antiga (sagrada), que constitui um imaginário coletivo recorrente (um sonho, uma ilusão), os indivíduos não podem ter individualidade, ou seja, todos devem estar subordinados a um plano coletivo (seja por força da natureza, seja por império de uma divindade, de um Deus).

Povo único e indivisível

A visão populista do mundo vê o povo como um conjunto unitário e indivisível, que não admite contestações, diferenciações, diversidades, antagonismos ou contradições. Pouco importa se esse povo tenha ou não uma constituição, tenha ou não uma lista de direitos e garantias fundamentais. Não há espaço para o diferente, para o contestador, para o insubmisso, para o rebelde, para o que pensa de outra maneira. Em suma, para o dissidente ou “inimigo”.

Visão maniqueísta

O populismo religioso ou secular (laico), que fala sempre em nome da unidade do povo, usa sua fé ou sua ideologia (ou ambas) não só para uniformizar as expectativas desse povo, senão também para priorizar, em detrimento da liberdade política, uma determinada “ordem social unilateralista” (uma específica coesão do corpo orgânico); faz preponderar a segurança (das suas crenças) sobre a liberdade individual, a comunidade (sagrada, imaculada) sobre o indivíduo, a tirania (o autoritarismo e até mesmo o totalitarismo) sobre a democracia, a estética sobre a ética (particularmente nos casos de racismo), a esfera espiritual (imaginária) herdada de longa data sobre a esfera secular iluminista (processo histórico mediante o qual a política, a sociedade, o direito e a cultura se tornam independentes da religião)[2].

Intolerância

A consequência nefasta dessa visão de mundo fechada reside na intolerância, na insuportabilidade do diferente, na refutação de todos os que foram excluídos ou nunca deveriam ter entrado no Jardim Edênico da prosperidade (e, eventualmente, da felicidade). Quem não se identifica com essa visão de mundo é inimigo (e para o inimigo vale a lógica da guerra, da destruição).

Visão populista do mundo “versus” modernidade iluminista

A visão populista gira em torno de um mundo imaginário, atrasado, longevo, intolerante e supostamente uniforme (eventualmente até escravagista), onde ainda não chegou (ou não chegou com muita intensidade) a visão ilustrada da vida e da humanidade, que é a da modernidade (séculos XVII e XVIII).

Não há pluralidade ou heterogeneidade

É claro que a visão radical (populista) do mundo (religiosa ou não religiosa) não aceita a ideia da autonomia indivídual nem de individualiadade, de razão, de heterogeneidade, de pluralidade, de diversidade. O mundo radical é um mundo fechado. É a negação da filosofia iluminista que prega o respeito a todas as pessoas, que não podem ser discriminadas por sua cor, raça, etnia, procedência, orientação sexual, crença, religião etc. (tal como diz o art. da Constituição brasileira).

O mundo e a perpetuação da guerra

O mundo está em queda livre (indo para o abismo) porque está se intensificando a guerra permanente. Isso é facilmente constatável tanto nas relações internas dos países (conflitos internos radicais entre conservadores e liberais, entre direita e esquerda, entre liberalismo e populismo, entre policiais e o crime organizado etc.) como nas internacionais: a matança horripilante de Paris (2015) é apenas continuação de Nova York (2001), Bali (2002) Madrid (2004), Londres (2005), Bombaim (2008), Quênia (2015) e tantos outros.


[1] ZANATTA, Loris. El populismo. Tradução de Deferico Villegas. Madrid: Katz Editores, 2014, p. 7 e ss.

[2] ZANATTA, Loris. El populismo. Tradução de Federico Villegas. Buenos Aires: Katz Editores, 2014, p. 11.

30 Comentários

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..."A religião estorva o jogo de escolha e adaptação a vida, ao impor igualmente a todos o seu caminho para conseguir felicidade e guardar-se do sofrimento. Sua técnica consiste em rebaixar o valor da vida e deformar delirantemente a imagem do mundo real, o que tem por pressuposto a intimidação da inteligência. A este preço, pela veemente fixação de um infantilismo psíquico e inserção num delírio de massa, a religião consegue poupar a muitos homens a neurose individual. Mas pouca mais que isso." Sigmund Freud - Mal-estar na Civilização.

Venho com muita honra, a este pequenino espaço, dizer que me sinto esclarecida pelo brilhante texto do Dr. Luiz Flávio Gomes. E contudo, não poderia deixar de falar algo que Dr. Sigmund Freud deixou de legado a humanidade. Em sua obra, O mal-estar na Civilização, Freud teve a mais difícil tarefa que alguém pode ate hoje explanar: dizer sobre a natureza do sofrimento humano.

O mais, peço permissão ainda para dizer que o controle das três fontes de onde vem o sofrimento humano quais sejam: a prepotência da natureza, a fragilidade do nosso corpo e a insuficiência das normas que regulam os vínculos humanos na família, no Estado e na sociedade, também foram palcos de intensas análises de Sigmund Freud.

Grata pela oportunidade.

Telma da Luz Rodrigues, advogada e psicanalista em formação. continuar lendo

Com o devido respeito, uma coisa não tem nada a ver com a outra (ou outras).

Não dá pra comparar um projeto de Lei que visa a promover um maior rigor na fiscalização dos casos reais de estupro para se proceder com o aborto - neste caso, legal - aos atos bárbaros do EI que mataram 129 pessoas em Paris, 224 no avião russo (confirmado o ato terrorista com uma bomba no avião), fora o genocídio que eles vem fazendo no Iraque e na Síria.

Homofobia? Pois é, o EI joga homossexuais do alto de prédios por lá. E aí?
Ah, mas aqui tem os cristãos "homofóbicos" (aqueles que discordam de práticas homossexuais, mas não matam nem agridem por conta disso).

Vamos parar com esse discurso de minimizar o grande mal que o ISIS representa.

Que a coalização internacional massacre esses loucos logo! É o meu desejo.
Aliás, é o desejo e o clamor que milhões que tem sido perseguidos, torturados e mortos pelo EI no Oriente Médio. continuar lendo

Mas em ambos os casos, temos uma NÃO ACEITAÇÃO nociva e até criminosa. Os metodos são de fato, diferentes. Mas a ideologia é a mesma. Não aceitam pessoas pelo que elas são.

Concordo com o seu pedido para que as forças internacionais acabem com o ISIS. Mas peço que, aqui neste país, haja uma coalizão social para DERRUBARMOS A BANCADA EVANGÉLICA. Que se coloca radicalmente contra qualquer direito civil que se queria obter. continuar lendo

Vou começar escrevendo que não sou evangélico. Dito isso, considero um absurdo equiparar os cristãos protestantes brasileiros com fanaticos mulçumanos que matam e torturam "infiéis" - ou seja, todos nós - com enorme crueldade e perversidade. Eu acredito que a democracia brasileira, por si só, tem mecanismos para barrar supostos excessos dos vários grupos políticos existentes no país. Bem diferente do caso do Estado islâmico onde não há menor possibilidade de dialogo. Por isso deixarei aqui um questionamento: por que tanto medo da participação política dessa enorme parcela da população brasileira? continuar lendo

Definitivamente, não atenderei seu chamamento, caro Leonam Martins. Continuo achando um completo absurdo e um total desproposito comparar cristãos por mais radicais que eles sejam com terroristas islâmicos. Verdadeiros radicais nem mesmo acreditam na política como via para resolução dos problemas socio-econômicos e, por isso, não participam dela. Se os evangélicos representassem um risco tão grande como alguns alarmistas querem fazer par nem mesmo haveria uma "bancada evangélica". continuar lendo

Ótimo texto,
Porém, acho que o jogo descaradamente virou. Hoje quem for contra algo que todos nessa sociedade liberalizada, sem regras e nenhum tipo de moral, é taxado como retrogrado, pré historico entre outras coisas. Vejamos só, antes o conservadorismo taxava as pessoas por serem diferentes, minoria etc etc etc. Mas hoje é o contrario que se vê. Uma minoria querendo se estabelecer em cima da grande maioria, taxando qualquer um que for contra tal ditadura comunista, pq só assim que eles se estabeleceram em alguma sociedade, impondo uma ditadura, é retalhado por essa massa minoritaria que s auto intitula intelectual e donos da razão. continuar lendo

Pode ficar relaxada, o Brasil está longe, muito longe de ser uma república socialista, o que dirá comunista e beeeem menos uma ditadura. continuar lendo

"Hoje quem for contra algo que todos nessa sociedade liberalizada, sem regras e nenhum tipo de moral"

Sociedade sem moral?
Qual moral você prefere, então?
A moral de 2000 anos atrás, onde tudo era "olho por olho, dente por dente" e mulheres deviam apanhar e até ser apedrejadas apenas por "desrespeitar" a seu marido?
A moral da idade média, onde a religião impunha sua vontade pela força e mulheres com qualquer pensamento diferente era julgada por bruxaria?
A moral do início do século 20, que não permitia o voto das mulheres nem sua candidatura, que não aceitava que a mulher pudesse trabalhar, e que as atrizes (de teatro) deviam portar "carteira de prostituta"?

Quem sabe prefira a moral vigente hoje em dia, em vários lugares do mundo, a que se refere o artigo, onde mulheres como você não podem expressar sua própria opinião (nem sequer se admite que tenham opinião), e não podem fazer absolutamente nada sem que tenha autorização expressa do marido.

A sociedade avançou, melhorou muito os seus códigos morais APESAR da religião e seus "donos da moral". continuar lendo

Entendi o que a nossa colega tentou dizer. Democracia sempre foi e sempre será o governo da maioria. Nela, as minorias são respeitadas e ouvidas mas não ditam as pautas dos parlamentos e nem comandam o governo nacional como vemos no Brasil atual. O que há no Brasil atual é uma total e completa inversão dos príncipios democraticos...! Também concordo com ela quando comenta sobre a pedância dos nossos pseudo-intelectuais de esquerda que acreditam serem os únicos detentores do monopólio da verdade, desprezando todo e qualquer dissenso e contraditório. continuar lendo

John Doe, a verdadeira moral é atemporal e serve em qualquer local do mundo. No entanto, o marxismo (que norteia a esquerda brasileira) considera o senso de moralidade mero "moralismo burguês" que pode e deve ser desprezado. Entenda uma coisa: o revolucionário marxista é guiado por um relativismo cultural e moral que afirma que não existe bem ou mal, certo ou errado; só existe o que é bom e o que é ruim para a própria causa...! Não dá pra aceitar que pessoas assim comandem o país com a quarta maior população do mundo. continuar lendo

Prezado Professor

Seus argumentos e fundamentos clássicos, ou, a justificativa freudiana para a hipótese da existência do inconsciente é freqüentemente reduzida aos seus elementos empíricos ou a um argumento meramente heurístico?
Não sei, o que penso a mim se justifica, mas aos contrários, talvez seja uma imposição de uma religião.
Seria correto afirmar que pessoas que tem coragem de cometer tais atrocidades, seriam pessoas ocas sem Deus?
Não seria. Pessoas sem Deus são pessoas que não acreditam num ser Divino, criador do céu e da terra, mas nem com tudo são criminosas, terroristas, seria injustiça.
Como qualificar um terrorista ou Eduardo Cunha nas suas atitudes?
Ora, ambos tem um "deus", mesmo que ao primeiro se mate em nome dele e, ao segundo, se "mate" também (aborto, na minha interpretação), não em nome dele, mas com a justificativa de não tê-los em nosso convívio um ser indesejável.
Então, a luz das quais doutrinas filosóficas tão bem citadas no texto, se responda ao seu questionamento?
Na doutrina filosófica popular se responde - "o buraco é bem mais abaixo".
Vale a interpretação de cada um, a maneira como se vê o caos, pelo menos temos um senso comum no que diz respeitos aos atos terroristas, somos unânimes, ato de covardia, e quanto ao aborto não o é?
Em que circunstâncias são as vítimas inocentes e indefesas?
Podemos prevenir o terrorismo e o aborto?
Sim, dedicando políticas sérias em cada modalidade.
Resta-nos meros leitores e eleitores, saber se as autoridades competentes, pensam como nós.
NOTA: É a minha interpretação, visão, do que li no texto, respeitando os demais comentários.
Abraços continuar lendo