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25 de Junho de 2022

O machismo como arma de destruição em massa das mulheres

Luiz Flávio Gomes, Político
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 7 anos

Em 2013, 12 mulheres foram assassinadas diariamente no Brasil (Datasus). Calcula-se que em 2015 esse número possa chegar a 15. Sete de cada 10 óbitos decorre de violência de gênero (o macho se sente proprietário da mulher – do seu corpo -, podendo fazer com ele o que bem entender). No jornal da TV Cultura (assim como nas minhas redes sociais) afirmei que, tendo em vista os números assustadores no País, é um absurdo eliminar a discussão de gênero dos planos nacional, estaduais e municipais de educação. Isso é fruto de ignorância crassa, que é muito disseminada em países educacional e intelectualmente muito atrasados (não podemos esquecer que nossa media de escolaridade é de apenas 7,2 anos, igual à de Zimbábue, que é uma nação muito mais pobre e menos estruturada).

O machismo como arma de destruio em massa das mulheres

As tradições religiosas bem como a história do pensamento (laico) nos legaram uma confusão tremenda entre constituição biológica do humano, gênero, identidade sexual, identidade de gênero e orientação sexual. Vamos (sinteticamente) tentar contribuir para a discussão pública do tema, marcado por deploráveis preconceitos:

Biologicamente (salvo desvios excepcionais da natureza) nascemos homem (com órgãos reprodutores masculinos, cromossomos e certos níveis hormonais) ou mulher (órgãos reprodutores femininos e demais características orgânicas correspondentes). Mas uma coisa é a biologia (a natureza) e outra distinta é o gênero (ambiente social em que vivemos), que diz respeito à atribuição e à relevância dos papéis e das tarefas que são (ou que devem ser) cumpridos pelos homens e pelas mulheres. Quais tarefas ficam com quem? Cuidar da casa, por exemplo, de quem é essa tarefa? Cuidar do filho, fazer compras, trabalhar fora de casa etc. Outro dado importante: quais tarefas são mais relevantes (as desempenhadas pelos homens ou as desenvolvidas pelas mulheres)?

Alice Bianchini menciona alguns dados para se ter uma ideia do problema: “as mulheres brasileiras recebem salário cerca de 30% menor do que o dos homens, muitas vezes nos mesmos cargos (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2012), enquanto, a OIT afirma que o Brasil, as mulheres deveriam receber 11% a mais que os homens”; enquanto os homens gastam 9 horas com tarefas domésticas por semana, o tempo da mulher nos mesmos afazeres é de 26 horas, o que prejudica o desempenho na escola, no trabalho e, inclusive, acarreta diminuição de tempo para o lazer. Dados da OIT dão conta de que teremos igualdade salarial, porém, somente em 2086. Quanto tempo será necessário para conquistar a equidade de gênero? ONU estima 81 anos (ou seja, em 2096).[1]

A identidade sexual diz respeito à identificação de cada um com uma determinada categoria sexual. O senso comum imagina apenas uma dualidade de sexos (masculino e feminino). Há, no entanto, uma imensidão de categorias sexuais (não é à toa que o Facebook menciona mais de 30). Identidade de gênero: é o gênero (papeis e tarefas) com o qual cada pessoa se identifica. Orientação sexual é a escolha e o relacionamento afetivossexual com outra pessoa (do mesmo sexo ou de sexo diferente ou de ambos os sexos; daí as relações homossexuais, heterossexuais, bissexuais, trissexuais etc.).

Em 11/8/15, o Data Senado divulgou a seguinte pesquisa (feita entre 24/6 7/7/15, com 1.102 mulheres) sobre violência doméstica e familiar contra a mulher[2]: (a) “as brasileiras (100%) sabem da Lei Maria da Penha, mas a violência doméstica e familiar contra elas persiste”; (b)“uma em cada cinco já sofreu algum tipo de violência; dessas mulheres, 26% ainda convivem com o agressor”; (c) “os agressores mais frequentes ainda são os que têm ou já tiveram relações afetivas com a vítima: praticamente metade dessas mulheres (49%) teve como agressor o próprio marido ou companheiro, e 21%; afirmaram terem sido agredidas pelo ex-marido, ex-companheiro ou ex-namorado” [7 em cada 10; sublinhados nossos].

Mais ainda: (d) “Nem todas as agredidas denunciam ou procuram ajuda, mas 97% das entrevistadas defendem que os agressores devem ser processados ou punidos, ainda que sem a concordância da vítima”; (e) “43% das pesquisadas não se consideram respeitadas, contra 35% em 2013. Apenas 5% sentem-se respeitadas, em 2013, eram 10%”; (f) “para 63% das respondentes a violência doméstica e familiar cresceu; 23% afirmaram que continuou igual e para 13% a violência contra a mulher diminuiu”; (g) “as agressões físicas ainda são majoritárias entre os tipos de violências praticadas contra as mulheres, uma vez que 66% das vítimas disseram ter sofrido esse tipo de agressão. A violência psicológica registrou crescimento de 10 pontos percentuais – 48%, agora, contra 38%, em 2013. Em contrapartida, houve redução da violência moral – de 39%, em 2013, para 31%, agora”; (h) “O ciúmes e o consumo de bebidas alcoólicas são os principais desencadeadores das agressões – 21% e 19%, respectivamente”; (i) “Apesar de ainda existir quem, por motivos pessoais, opte por não fazer nada, a maior parte das pesquisadas procurou alguma forma de auxílio: 20% buscaram apoio da família, 17% formalizaram denúncia em delegacia comum e 11% denunciaram em delegacia da mulher”.

Outros dados: (j) “As mais agredidas são as que têm menor nível de instrução – 27% entre as que cursaram até o ensino fundamental; 18% até o ensino médio e 12% com curso superior”; (k) “No universo das que sofreram violência, 26% continuam convivendo com o agressor; 23% sofrem hostilidades semanais e 67% são vítimas de violências raramente”.

O balanço semestral (1º semestre de 2015) da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, por seu turno, revelou o seguinte: “de todos os relatos (mais de 2 milhões), 8,84% foram de violência contra a mulher. Do total de 32.248 relatos de violência contra a mulher, 16.499 foram de violência física (51,16%); 9.971 de violência psicológica (30,92%); 2.300 de violência moral (7,13%); 629 de violência patrimonial (1,95%); 1.308 de violência sexual (4,06%); 1.365 de cárcere privado (4,23%); e 176 de tráfico de pessoas (0,55%). Houve aumento de 145% nos registros de cárcere privado, com a média de oito registros/dia; de 65,39% nos casos de estupro, com média de cinco relatos/dia; e de 69,23% nos de tráfico de pessoas, com média de 1 registro/dia”.

O massacre machista contra as mulheres (com números estarrecedores no Brasil) decorre de muitos fatores. Um deles diz respeito a uma tese libertária feminista, que diz: “O corpo é meu e como dona dele faço o que eu quero”. Isso dá margens a muitos mal-entendidos (como veremos em um próximo artigo).

[1] Cf. http://professoraalice.jusbrasil.com.br/artigos/218956880/generoeuma-coisa-orientacao-sexualeoutra-coisa, 13 ago. 2015. Acesso em: 13 ago. 2015).

[2] http://www.senado.gov.br/senado/datasenado/release_pesquisa.asp?p=67, 11 ago. 2015. Acesso em: 11 ago. 2015.

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Alice Bianchini, Advogado
Artigoshá 7 anos

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32 Comentários

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Muito bom, professor! É preciso alertar sempre sobre um problema tão real que acontece em milhares de famílias onde a sociedade opta por fechar os olhos. É preciso discutir sobre o despreparo das delegacias, mesmo as especializadas em atendimento a mulher, em lidar com o tema.
O número de estupro tem tomado uma proporção alarmante, e o discurso ainda se limita em como ensinar as mulheres a não serem estupradas.
Parabéns pelo artigo e por deixar evidente que o machismo é o principal causador da violência contra mulher!
Parodiando um slogan da luta armada espanhola contra o fascismo: "Machistas, não passarão!" continuar lendo

Excelente o artigo.

Diante do exposto, e pelos maravilhosos comentários até então, o que acrescentar?

Apenas dizer, que todo machão covarde veio de uma Mulher.

O grande segredo do universo, começa pelo respeito a mulher. continuar lendo

Muito obrigada!
_/\_ continuar lendo

Ótimo artigo, Professor!
Em relação ao exposto fica claro que a implementação de leis não consegue impedir que determinados crimes ainda continuem ocorrendo, ou seja, a eficácia a lei é muito baixa.
Portanto, é fundamental o investimento em educação e a disseminação de conhecimento e informações, principalmente para os jovens, pois dessa forma em médio prazo poderíamos ter cidadãos mais conscientizados. continuar lendo

Agora falta escrever "O Feminismo como arma de destruição em massa de fetos".
Não venham me dizer que o feminismo é só flores. continuar lendo