jusbrasil.com.br
24 de Setembro de 2017

Para o neofeudalismo a meia verdade da mídia basta

Luiz Flávio Gomes, Professor de Direito do Ensino Superior
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 2 anos

Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes” (Albert Einstein). Minhas crônicas desta semana ainda não foram totalmente compreendidas. Somos, no entanto, verde-amarelos, logo, persistentes. Vamos ver a de hoje. Nós, os senhores neofeudais invisíveis (plutocratas, oligarcas cartelizados e, sempre que possível, ladrões cleptocratas do dinheiro público), atribuímos a culpa de toda corrupção a quem a merece, ou seja, ao Estado, às empresas estatais, ao petismo, aos agentes públicos e, particularmente, aos políticos. Só em parte, evidentemente, isso é verdadeiro. Nós, os verdadeiros donos do poder (financeiro e econômico), do mercado, das empresas e das corporações, também somos corruptos (mais precisamente, somos os corruptores). Mas nós não aparecemos. Somos invisíveis.

Faz parte do jogo do poder noticiar os corrompidos, não os corruptores. Dois exemplos: 1º) Veja o escândalo do ISS no município de São Paulo: a mídia mostra os fiscais corruptos, quase nunca nós, os corruptores. Esse é um dos mais eficientes truques do exercício do poder; 2º) Todos ouviram dizer que Eduardo Cunha teria recebido 5 milhões de dólares de propina. Você sabe quem teria pago essa propina? Pouca gente sabe. Os delatores dizem que foi a Samsung e a Mitsui. As coisas estão mudando no Brasil em nosso desfavor. Sempre há cretinos que querem mudar as regras do jogo que sempre nos foram muito favoráveis. A instituição da impunidade tem tradição e merece respeito.

Para o neofeudalismo a meia verdade da mdia basta

Se existe um campo em que nossa organização neofeudal vem conseguindo uma eficaz comunicação (doutrinação) com a população, esse é o da grande mídia, nossa fiel aliada na arte das manipulações. A regra de ouro é a seguinte: não é preciso propagar mentiras, basta não contar toda a verdade. O assunto corrupção é, como todos podem imaginar, um dos mais sensíveis para nós, porque pode implicar alguma vulnerabilidade para nossa estrutura (que os maldosos apregoam ser mafiosa). Vemos nisso uma calúnia e um exagero. Mas é inegável que neste campo da cleptocracia contamos com uma forte e triunfante tradição.

São mais de 500 anos de prática contínua, sendo Pero Borges, o primeiro corregedor-ouvidor-geral da Justiça, nomeado pelo rei em 17/12/1548, juntamente com Tomé de Souza, o Governador-Geral, um dos nossos baluartes inesquecíveis: foi nomeado para ca depois de ter surrupiado grande soma de dinheiro na construção de um aqueduto, em Elvas (no Alemtejo) (veja E. Bueno, em História do Brasil para ocupados, organizado por L. Figueiredo, p. 259). Para o cidadão comum e os neovassalos (neoservos ou neoescravos), que contam com 7,2 anos de escolaridade em média, no entanto, sempre é bom recordar: a História explica, mas não escusa. Dos deveres éticos e morais somente nós, os senhores neofeudais invisíveis, estamos dispensados.

Por meio da corrupção já alcançamos alguns trilhões de dólares ao longo desses cinco séculos de neofeudalismo. A corrupção, ao lado do parasitismo (extrativismo e exploração de tudo e de todos – veja Manoel Bomfim, A América Latina), são dois dos grandes esteios de sustentação dos nossos prósperos negócios. O Brasil não seria jamais oligarquicamente rico (com serviçõs públicos deploráveis) se não existissem tais fontes. A corrupção, no entanto, deve sempre ser noticiada como coisa do funcionário público, do Estado, das empresas estatais, dos políticos.

Quando se divulga que mais da metade dos parlamentares eleitos em 2014 tem problemas com a Justiça (clique aqui para ver a lista dos políticos e suas implicações policiais ou judiciais), isso reforça nosso discurso: oferecemos a prova de que eles é que são os exclusivos corruptos (não nós). Trata-se de uma propagação massiva do discurso da antipolítica (somente os políticos não valem nada: essa é a mensagem diária). Dizemos que a corrupção está indissoluvelmente (e exclusivamente) ligada aos políticos. Nós, os senhores neofeudais corruptores, continuamos na sombra. O poder é exercido dessa maneira.

Eis uma amostra do nosso discurso (O Globo 26/7/15: 18): “Grande peso do Estado na economia explica a corrupção: a Polícia Federal, desde 2002, faz mais operações contra os criminosos do colarinho branco porque a corrupção aumentou muito no Brasil. E por que a corrupção aumentou? Basta ver os dois maiores escândalos dos últimos tempos: mensalão e petrolão. Em ambos o epicentro reside nas empresas estatais. A corrupção é imensa no Brasil em razão da grande participação do Estado na economia, sendo as estatais eficazes gazuas de arrombamento de cofres públicos; essas empresas oferecem múltiplas oportunidades de falcatruas; o petrolão lulopetista é a prova concreta de que há uma relação direta entre estatização e corrupção; nestes 13 anos de poder lulopetista um grupo político voraz encontrou nessas empresas amplas oportunidades de financiar, com caixa dois, seu projeto político e eleitoral; sem essa grande participação do Estado em setores que movimentam muito dinheiro, não haveria como o PT e aliados se financiarem com propinas”.

Não precisam falar mentiras, bastam as meias verdades. Não se joga a culpa em nós, os corruptores, sim, nos corrompidos. Não se fala de dezenas de países estatalistas (como os escandinavos) onde tudo funciona bem, com baixíssima corrupção. Isso acontece em virtude do capitalismo distributivo (que é uma palavra impronunciável aqui). A lógica é controlar a patuleia (as massas rebeladas) com informações rasas. Jamais botar o dedo na estrutura do poder. O buraco é mais em cima. Mas Ícaro sabe que não pode se aproximar do Sol.

20 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

"Maquiavel fingindo dar lições aos Príncipes, deu grandes lições ao povo." Rousseau. continuar lendo

Professor, excelente artigo. A vida de nós brasileiros, estamos vivendo ou tentando sobreviver em meio a essa, falta de coletividade, respeito e amor ao próximo, como diz; o filósofo Mario Sergio Cortella, “Qual é a tua obra”. continuar lendo

Perfeito, Lucas !!

"Falta de coletividade, respeito e amor ao próximo", advindo de senhores neofeudais que transbordam elitismo e mau caráter na mesma proporção.

Sempre jogando o mesmo jogo.
Sempre prontos a continuar iludindo quem quer acreditar neles.
Sempre jogando a culpa nos bodes expiatórios de sempre.

Pobre Brasil. continuar lendo

Espero que desta vez fique claro o belo discurso que vem apresentando ao longo dessa semana.

Como é que a mídia vai delatar quem a financia. Ou seja, ela é corrompida pelos mesmos corruptores dos políticos. Ou as pessoas não sabem que as mega empresas multinacionais que enriquecem os meios de comunicação com sua propaganda insistente?

Ou não vemos a Sansung fazendo propaganda com o nosso garoto Neymar?

Coisa semelhante acontece na Fifa. Os administradores são peões na frente do grande capital que vem logo atrás. Josef Blatter e companhia, defendem os interesses do grande capital. Por que será que bancos gastam tanto com o futebol ? Filantropia ?

Como em um jogo de xadrez, os agentes políticos são apenas os peões descartáveis que protegem e preparam o terreno para as peças mais importantes.

Mas, então, onde estão as torres, os cavalos, os bispos, rei e rainha?

Acho que existe um lugar onde existe realeza e construiu um império nos últimos séculos. Lá existe um parlamento constituído de nobres vitalícios que são donos de empresas multinacionais. Está tudo as claras é só pesquisar. Onde o poder econômico está fundido com o poder político e as pessoas ainda aclamam seus dominadores.

Veja a lista e o currículo dos membros da Câmara alta:

http://www.parliament.uk/biographies/lords/

Encontrei bispos lá também. Coincidência com a analogia que apresentei antes?

Para sustentar a qualidade de vida nas capitais do império, muita desgraça é feita ao redor do globo. Assim como o império Romano garantia uma qualidade de vida em sua capital a base de exploração dos povos conquistados, penso que ocorre o mesmo na atualidade.

Quem acha que não estamos sob o domínio do império anglo-americano com seus peões corresponsáveis, é claro? As outras peças protegem o Rei e a rainha que continuam montando armadilhas no tabuleiro para preparar as jogadas principais.

Cunha, Lula, Dilma, Calheiros são peças importantes para a estrutura. Talvez, cavalos ou torres. Só ganharemos o jogo se acharmos onde está o rei. continuar lendo

Olha o que a crise faz:

Lucro do Bradesco cresce e chega a R$ 4,47 bilhões no 2º trimestre

http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2015/07/lucro-do-bradesco-cresceechegar447-bilhoes-no-2-trimestre.html

Devemos ver o que está por trás desse circo político de "crise". Crise pra quem ? continuar lendo

Não acho que exista rei. É uma estrutura que se auto- alimenta. Muda-se apenas os personagens. Teríamos uma boa oportunidade para se mudar esta estrutura se a mídia não fornecesse apenas informações rasas como bem falou o Prof. Luiz Flávio. Ou, por outro lado, se os agentes do Judiciário envolvidos na Lava Jato se permitissem não se guiar pela opinião pública. continuar lendo

E não é somente o Bradesco não, TODOS os bancos obtiveram lucros exorbitantes, e ontem 4ª feira (29/07) o Copom aumentou novamente a taxa de juros, ou seja; o lucro dos banqueiros aumentará na mesma proporção,e o povo? Ora o povo, não é importante.Disse em outro comentário que admiro a vontade do povo Ucraniano para pressionar seu governo em legislar a favor da população, acho que nos falta o que sobra a eles:
"Patriotismo e nacionalismo", qualidades que não possuimos, infelismente.

Se não colocarmos a RAINHA em xeque, nada mudará no Brasil. continuar lendo

Caro Levino,

Pegou o que quis dizer.

Deixo uma citação de Audous Huxley que reflete a situação do mundo.

"A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão." continuar lendo

Pontual.....sarcastico....genial.....seria até cômico, se não fosse trágico..... continuar lendo