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28 de Fevereiro de 2020

Licença para matar: Brasil é vice-campeão mundial na violência contra jovens

Luiz Flávio Gomes, Político
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 5 anos

De acordo com relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef, divulgação em 4/9/14) o Brasil é o vice-campeão mundial no número de homicídios de jovens de zero a 19 anos: mais de 11 mil foram assassinados no nosso país em 2012 (ano em que o Brasil teve quase 57 mil óbitos intencionais). Nesse item só perdemos para Nigéria. Quanto à taxa por 100 mil habitantes, o Brasil é o 6º colocado (17 para 100 mil). Na sua frente estão El Salvador (27), Guatemala (22), Venezuela (20), Haiti (19) e Lesoto (18). No planeta, 95 mil crianças e adolescentes foram assassinados em 2012 (12% no território brasileiro); 90% das mortes globais ocorreram em países com renda média ou baixa (América Latina, Caribe e África). Causas: alta da criminalidade, o crescimento da desigualdade, acesso fácil a armas de fogo, maior consumo de drogas e aumento da população jovem; o jovem negro tem três vezes mais chance de ser morto que um branco.

Por que somos como somos? O Estado brasileiro (imperial), criado em 1822, nasceu geneticamente contaminado, posto que reprodutor do totalitarismo e absolutismo colonial, guiado pela coerção dos excluídos e segregados do Estado de direito, que permitia e sempre permitiu o genocídio herdado da metrópole parasita e sanguinária, criadora de uma filosofia e de uma máquina mortífera até hoje em pleno vigor no Brasil (e, a rigor, em toda a América Latina).

Não é por acaso que o Brasil é o 12º país mais violento do planeta (29 assassinatos para cada 100 mil pessoas) e vice-campeão mundial (em números absolutos) na violência contra os jovens (sobretudo negros e pardos). Há uma verdade histórica que parece incontestável: não se implanta um país violento e corrupto da noite para o dia; não se constrói um país subdesenvolvido (composto em quase sua totalidade - ¾ da população – de analfabetos funcionais) com uma só canetada. Mesmo depois da independência, os donos do poder (sectários do parasitismo e da malevolência) não rechaçaram a “normalidade” da escravidão e da servidão, que acabou justificada pela teoria de que o crescimento econômico do país (sempre do país, nunca dos donos do poder) dependia do parasitismo fulcrado no trabalho escravo.

Foi dessa maneira que elaboramos nossa primeira Constituição (1824), que era, ao mesmo tempo e paroxalmente, liberal e escravocrata. Tratava-se de uma doutrina nitidamente retrógrada, ultrapassada, espoliadora e sanguessuga, que não apresentava nenhuma dissonância com o que ocorria na colônia extrativista nem com o que se passa hoje no nosso país (ainda sob o império do neocolonialismo).

A estrutura do poder colonial, sob o mando dos senhores de engenho, tirânico, absolutista e indiscutivelmente despótico, sofreu um processo de transubstanciação (como diz Foucault) ano momento em que se converteu em poder imperial (veja Luís Mir, Guerra civil, p. 46), depois em poder republicano e, desde 1985, em poder da falida e corroída redemocracia (que ainda retrata a era contemporânea brasileira, já exaurida e exangue, indicando a carência de uma nova era). Da sociedade imoral escravocrata e disciplinadora colonial (sobre a transição das sociedades disciplinares para as de controle veja Foucault, Vigiar e punir) passamos para a sociedade de controle dos segregados e excluídos, regido pela coerção e o genocídio, desses que são considerados homo sacers (veja Agamben), ou seja, gente inimiga que pode ser destruída (exterminada) impunemente (em regra impunemente), consoante o diabólico funcionamento da máquina de moer carne e ossos.

Não existe solução de continuidade (interrupção) entre o exercício do poder de controle colonial e imperial. Tampouco desapareceu a lógica e filosofia do genocídio com a república (1889) ou mesmo com a redemocratização (1985). A relação de todos os poderes com os marginalizados (negros, índios, brancos pobres etc.) sempre foi estabelecida sobre as bases da mortífera violência. A mão disciplinadora e controladora do senhor de engenho é a mesma dos posteriores agentes de segurança: “quando não anulam a resistência do indivíduo que somente pode ocupar uma única posição, a de servil e submisso, o abatem como inimigo (como homo sacer), com o máximo de letalidade imaginável” (Luís Mir, citado, p. 46).

O extermínio criminoso, ignominioso e massivo dos jovens (especialmente quando a cor da pelé é preta ou parda), em pleno século XXI, nada mais representa que a continuidade operativa da máquina da escravocracia, devidamente planejada, calibrada e dominada pelos donos do poder, que controlam não somente os lugares onde os excluídos devem permanecer senão também o grau de escolaridade e de desenvolvimento econômico dos quais eles podem desfrutar. “A máquina de dominação dos senhores de escravos foi absorvida pelo poder imperial [depois pelo poder republicano e, hoje, pelo poder da redemocracia]: a consequência disso [até hoje] é que este tem que enfrentar e reprimir um crepitar permanente de rebeliões e desordens sociais [geradas muitas vezes pela própria irresignação dos rebelados frente ao exercício totalitário e desigual do poder de controle dos dominantes], que antes [na colônia] era de competência e custo dos senhores de escravos” (Luís Mir, citado, p. 47). É nisso que reside a castração ab initio, por meio da violência, da (ainda hoje impossível) pluralidade existencial ou mesmo da pacificação. Se hodiernamente o Brasil é um dos países mais violentos do planeta, é preciso reconhecer que essa realidade não representa nada mais que fruto do que sempre plantamos. Quem planta mal, como se sabe, colhe o amargo (a violência, o genocídio estatal, o extermínio). “Combata fogo com fogo e tudo que restará serão cinzas” (Abigasil van Buren, americana, colunista). “A segurança só para alguns é, de fato, a insegurança para todos” (Nelson Mandela, sul-africano, político).

79 Comentários

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"Causas: alta da criminalidade, o crescimento da desigualdade, acesso fácil a armas de fogo, maior consumo de drogas e aumento da população jovem; o jovem negro tem três vezes mais chance de ser morto que um branco."

O Estatuto do Desarmamento está em vigor, hoje não se encontram lojas de armas de fogo como se encontravam quando de minha infância (passava nas ruas e as via nas vitrines das lojas de caça e pesca), mesmo assim diz-se que o acesso às armas é fácil? Só se for para o bandido. Mesmo tendo-se desarmado o cidadão, a criminalidade só aumenta, o que mostra que a arma do cidadão não comete crimes (nenhuma comete, pois são objetos inanimados, quem os comete são aqueles que as usam).

Por que, em vez de apontar para a etnia, não relacionou a maior taxa de mortalidade com fatores socioeconômicos: quem mora em zonas de risco está mais propenso a ser morto, principalmente os jovens seduzidos pelo poder do tráfico e das milícias. Acontece que a maioria estatística nas zonas de risco são afrodescendentes. continuar lendo

Caro Achille, muito bem colocado, também acho que existe um claro "equívoco" no raciocínio além de haver sempre uma tendencia em transferir toda a culpa ao "sistema", sem considerar os diversos fatores que de fato influenciam nas mortes em nosso país. É muita teoria e pouca prática...
Realmente não existe, pelo menos para o cidadão comum, acesso fácil as armas, muito pelo contrário, embora hajam regras para que alguém do povo as possua, as dificuldades impostas, mesmo seguindo as regras, tornam quase que impossível ter uma arma em casa para proteção da família. continuar lendo

Disse tudo... Já passou da hora do cidadão ter direito ao porte de arma de fogo. Hoje é praticamente impossível da PF autorizar. continuar lendo

Prezados senhores Helder e José Carlos

Caso não concordem com o Estatuto do Desarmamento, e o desejem ver revogado, os senhores podem votar na seguinte enquete na página da câmara dos deputados:

http://www2.câmara.leg.br/agencia-app/votarEnquete/enquete/EFACA575-3AC4-4A69-96CC-C64F8B05A507 continuar lendo

Jurista entende de direito. A explicação não tem qualquer fundamento científico. Nenhum historiador sério se arriscaria a fazer uma afirmação dessa. O Brasil nutre uma cultura de violência e é nítida a ausência de educação, de valores e a ausência paterna. Agora para saber o porquê, pergunte a um historiador e sociólogo. continuar lendo

A família, primeira escola, aprendemos a lei do amor. Se a família é base da sociedade, é nela que se encontra o estopim de toda essa violência, acompanhado da ineficiência do Estado em sanar essa lacuna.
Infelizmente, vivemos num País em que as famílias em sua maioria estão desestruturadas. Isso leva-me a crer que o Brasil caminha para um estado de anomia. continuar lendo

Muito engraçado, se for assim os EUA é um país de analfabetos e primatas, não há ninguém que cultue a violência mais do que eles, (prova disso o número de armas de fogo por cidadão) isto não tem nada a ver com ausência (ou não) de educação. continuar lendo

Um dos porquês da violência é fácil de apontar: a ineficiência do sistema punitivo. A função da pena é inibir quem ainda não praticou o crime. No Brasil não funciona, pelo contrário, estimula. continuar lendo

Nos ultimos dez anos tenho visto só numeros negativos para o Brasil, será que tem algo em comum com a ascenção do PT ao poder.. como?se este era para representar a redenção de uma nação? então o que resta de esperança para todo este povo? que teima em não perceber o que ocorre à sua volta.. quando estivermos passando fome, desempregados, doentes, e morrendo nas filas, talvez percebamos que somos culpados de tudo isto.. acorda meu povo.. continuar lendo

Segurança é competência estadual, e não do governo federal. continuar lendo

Acorda você! seu coxinha!
Do testo acima, redigido pelo ilustre professor, não há nada a ser contestado, é claro, sem teorias extravagantes, é um relatório histórico e real.
Se você não simpatiza com a "esquerda", é provável que seja da "direita" e portanto faz parte dos que conduziram a formação vergonhosa de nossa nação. continuar lendo

Caro Fidel se você acha que este testo não deve ser contestado, acho que você não o leu direito, por isso que somos o que somos. continuar lendo

Leitor da Veja detectado...

iiiiiiii mais um querendo fazer politicagem aqui, desde quando a velha direita se importou com filas em hospitais e toda essa pataquada hipócrita que se repete na mídia?
Vá fazer campanha pro seu candidato em outro lugar. continuar lendo

A quem entende que meu comentário teve fundo polítco, engana-se, pois em nenhum momento disse que a esquerda ou direita é melhor.. apenas, que esta esquerda caviar, que se apossou do Brasil demostra ser incopetente para gerir os grandes problemas nacionais, inclusive a violência.. pois, e sentida por todos, o crescimento ainda mais acelerado da mesma nas cidades brasil à fora.. acham que os políticos ligados ao PT estão preocupados com estes problemas, então mantenha-os no poder e verão em que o nosso Pais se transformará, pois todo o sistema já foi montado.. acham que venezuela,cuba e russia são algo a ser imitados, então.. boa sorte a todos, espero estar enganado! continuar lendo

Como dizesse Steve Ballmer: EDUCAÇAO, EDUCAÇAO, EDUCAÇAO, EDUCAÇAO, !!!
Isso na verdade é a problema do Brasil. O fundo dos todas as problemas é isso! Só isso! Tudo outro depende disso!
Espanha também tive uma ditadura até 1975! (Do Franco) Mas eles nao tem as problemas do Brasil aqui na Europa. Eles são quebrado, sim, mas tem boa educaçao, baixa criminalidade e respeito dentro Europa. É facil dizer é tudo a culpa dos políticos, dos fazendeiros, da classe alta, ...
Mas na verdade é um problema maior do povo Brasileiro! Por que eles nao estavam na rua anos atras? Por que eles nao demandam escolas bons, universidades bon, livre pra todos ? Aqui na Europa temos tudo isso! E por isso temos boa educaçao. Aqui na Alemanha o filho do direitor É na mesma escola como o filho do trabalhador! Por que nao no Brasil? Povo do Brasil, ACORDE !!! Vai pra rua, até vc tem educaçao pra todos!
Nao eleite palhaços!
Só assim Brasil vai mudar! continuar lendo

Bernhard, eu conheço muito da história da Alemanha, pois já li muito sobre seu país. Vocês alemães tem uma história mais conturbada, e por isso são um povo mais maduro.
Aqui o povo vota em qualquer um que venha com promessas tolas e populistas.
O povo alemão já caiu no encanto de um político do qual eu tenho mais de 100 livros sobre sua vida e história, e observo que um político que saiba manipular um povo é capaz de fazer muitas coisas graves. É o que acontece aqui, temos milhares de partidos plíticos, uma quantidade absurda, pois eles sabem que estando no poder é muito mais fácil de roubar. Aqui não existe diferença de partido de esquerda e direita, estando no poder, rouba-se da mesma forma. Tenho dúvidas da real utilidade do poder legislativo aqui, pois são uma corja de inúteis. continuar lendo

Com certeza!
Educação!
Mas o texto do professor explica porque não houve a tal "educação"! continuar lendo

Direito, Direito, Direito !!! Precisamos de Instituições fortes. A lei deve valer para TODOS. Tirar um doutorado no exterior não vale nada neste país. Não garante vaga numa Universidade Pública. Já vi doutor (negro) recém-chegado do exterior perder 3 vagas para professor SUBSTITUTO para candidatos com apenas o título de graduação. O governo dado seus passos na educação, porém o romance "O Mulato" de Aluisio Azevedo escrito em 1881, ainda é bem atual em nosso país. continuar lendo

Senhores, não creio que o problema do brasil seja a educação (isoladamente), por um simples motivo.
Quando se vai ao shopping, é muito comum ver carros de luxo estacionados em vagas para idosos, ou até vagas para deficientes, aí eu vos pergunto, será que essas pessoas com esta condição financeira, não tiveram acesso à educação de qualidade ??
Por isso que eu falo, o problema não é educação, o problema é falta de cidadania. Meu pai, por exemplo, só estudou até o segundo ano primário, mas jamais estacionaria seu carro numa vaga dessas. continuar lendo