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21 de Outubro de 2018

Internet, baixarias e vulgaridade

Luiz Flávio Gomes, Professor de Direito do Ensino Superior
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 4 anos

Cacá Diegues bem sintetizou a problemática: “A internet é um espaço de progresso humano, através dela podemos dizer o que pensamos a um número superior de pessoas, além de nossas relações. Até acho mesmo que, de algum modo, ela nos levará a uma nova forma de gestão política em que poderemos dispensar a representação dos que não nos representam. Mas não aguento mais receber ‘informes políticos’ insanos de ativistas de todos os partidos, nessas vésperas de eleições. São textos do mais baixo nível, contendo óbvias infâmias e mentiras ostensivas, conclamando os destinatários a ações antidemocráticas contra o governo ou contra a oposição, numa linguagem primária, desprovida de sentido e grosseira. A internet pode ser também um espaço de irresponsabilidade e de apologia da violência política. Como não podemos mais abrir mão dela, cabe a nós tentar evitar que isso acabe acontecendo” (Globo 9/8/14: 20).

Nossa primeira alma é composta do Eu nas relações comunitárias menores: família, local do trabalho, escola, bairro etc. Nesse ambiente reduzido sabemos do nosso valor, da importância que temos para os outros, do respeito ao outro etc. A segunda alma (dilacerada) surgiu quando o Eu passou a viver em grandes cidades (onde a despersonalização é a regra). É aí que sentimos nosso pouco valor, um ser composto de quase nada e cuja existência muitas vezes fica sem sentido algum.

Essa segunda alma depauperada (nos grandes centros urbanos) foi substituída pela alma digital, que apareceu com a internet. Esta proporcionou a recuperação do Eu, a exteriorização da espontaneidade não refinada, a ilusão de que temos enorme valor, a sensação de que somos relevantes perante o mundo, a liberdade (que a democracia nos confere) de opinar sobre tudo e sobre todos; tudo isso, no entanto, sem as mediações da civilização, da ética e dos bons costumes (Gomá Lanzón).

Do “Penso, logo existo” passamos para o “Existo ou apareço (com minhas postagens), depois eu penso”. É a negação completa do pensamento do filósofo Descartes. O Eu não civilizado, não domesticado moralmente, mas independente e livre por força da democracia, tem todo direito de existir e de expressar publicamente suas ideias, tanto quanto o civilizado, quanto o mais seleto grupo cultural (afinal, todos são dotados da mesma dignidade ao nascer). Nisso consiste a igualação da democracia, que é marcada, no entanto, pela desigualação moral de cada um dos seus membros.

A prazerosa vulgaridade se instalou na nossa cultura (Gomá Lanzón 2009: 12). Tornou-se um direito de todos. É fruto da sonhada igualdade e liberdade (inerentes ao sistema político democrático). Normalmente o exercício dessa prazerosa vulgaridade não traz maiores consequências para o indivíduo ou para a coletividade. Em outras ocasiões sim, ela se torna nefasta.

A privacidade (mundo recatado do qual as pessoas se orgulhavam) foi vencida pela extimidade (colocação da intimidade para fora), que é comandada pelo “Apareço, logo existo”. Primeiro postar, depois pensar. Há coisas fantásticas na democracia e na internet. Ao lado delas, também vemos igualitarismo, massificação e profunda mediocridade: três frutos da democracia (dizia Tocqueville), especialmente da digital (acrescentaríamos).

Com a massificação (que apareceu em 1793, na França) teve início o desaparecimento do bom gosto e dos bons costumes. Tudo foi ficando líquido (Bauman), excêntrico (Stuart Mill), poroso, transitório.

A moral aristocrática (defendida por Nietzsche) foi substituída (ou é compartilhada, em muitos lugares) pela moral da prazerosa vulgaridade democrática, que se caracteriza (a) pela espontaneidade do Eu, (b) pela liberação dos instintos elementares e (c) pela ausência de mediações culturais e simbólicas civilizatórias (Gomá Lanzón).

Qual a saída para isso? Temos que reformar nossa prazerosa vulgaridade e isso pode ou deve ser feito, sobretudo, por meio da exemplaridade (Gomá Lanzón). Seja exemplar (para seus filhos, para sua família, para seu bairro, para sua cidade, para seu país). Uma nova paideia (educação cívica) tem que ser dirigida à exemplaridade.

É impossível edificar uma cultura sobre as areias movediças da vulgaridade (diz Gomá Lanzón 2009:12), visto que “nenhum projeto ético coletivo é sustentável se está baseado na barbárie de cidadãos liberados, porém, não emancipados, personalidades incompletas, não evoluídas, instintivamente autoafirmadas e desinibidas – dispensadas – do dever”.

83 Comentários

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Quanta confusão com os efeitos e conceitos da democracia. Vincular democracia com liberdade e igualdade foi mais um dos seus grandes equívocos, mas, além disso, vamos ao ponto desse texto.

Com todo respeito, professor. Mas ta na hora de respeita a opinião e a liberdade de expressão. A internet exterioriza o que já existia a um bom tempo; apenas dá maior publicidade. Porém, este "mal" não se compara com todos os benefícios que ela nos trouxe, como por exemplo, informações diferentes daquelas que aprendemos nas academias com professores conservadores, conhecimento e senso crítico para aprender a filtrar as informações, e buscar a verdade por si só no meio deste mar de textos e artigos. E isto, acabamos levando para a academia, criticando o que ouvimos dos nossos professores, questionando, pesquisando mais a fundo, não se atendo a primeira informação.

Não consegui entender o objeto do seu texto. Se foi apenas exteriorizar o seu desgosto com o que vê na internet, ou, apenas um ataque temerário as informações e opiniões misturado com uma subestimação do senso crítico da população. Conheço muitas pessoas que aprenderam a criticar e a pensar melhor sobre as informações que escutam (ou leem) e parcialmente, sou uma delas; antes, o que se ouvia no Jornal Nacional, ou o que o professor dizia em aula, eram verdades absolutas.

Esta é a maior biblioteca do mundo. Com livros ruins e bons. Com verdades e mentiras. Ficções e realidades. Devemos aprender com ela, separar e, principalmente, devemos ama-la! continuar lendo

Eumenis:
Só não digo que a devamos amar, no mais concordo com sua opinião.
A Internet é espaço público; uma praça; onde todos falam ao mesmo tempo. Cada qual nela econtrará aquilo que procurar e verá o que olhar.
Há o lixo e há a joia, basta olhar para o lugar certo. continuar lendo

Sem a internet a democracia não evolui.
Todos tem direito a pensar e a escrever o que pensam mesmo que seja bobagem.
A internet tem ajudado a descobrir muitas robalheiras que antes eram impossíveis de serem descobertas.
Defendo a livre expressão de pensamento. continuar lendo

Acredito que o texto se refira um pouco ao que fez em seu comentário Eumenis.

Para uma discussão saudável, que leve os debatedores a um lugar melhor, não vejo qualquer sentido em iniciá-la com agressividade. Parece mesmo um prazer sádico; bater nos outros a troco de nada, sem necessidade.

Se achou o texto confuso e deseja chegar a um lugar melhor, exponha suas dúvidas sobre o texto, debata-as com respeito (porque sem respeito o debate sempre se torna pessoal), explique porque achou confuso e dispense o "quanta confusão", o "mais um dos seus grandes equívocos", que são apenas agressões "vulgares" que acrescentam absolutamente nada e atrapalham o debate.

O objeto do texto não foi desqualificar a internet como fonte de informação (ao menos não consegui extrair isso de nenhuma passagem), mas exteriorizar o desgosto por manifestações agressivas, impensadas, irracionais, sem conteúdo, etc., e clamar por uma mudança de atitude.

Essa foi a minha interpretação.

Concordo 100% que precisamos de mais cuidado, respeito e empatia nas manifestações na internet, do contrário levarão apenas a involuções. continuar lendo

O rótulo (Internet, baixarias e vulgaridade) retrata o conteúdo do próprio texto. continuar lendo

Rafael Costa. Acredito que não tenha lido os demais artigos do Professor. É contumaz sua atitude de desrespeito a opinião contrária. Principalmente no que tange a visões políticas e econômicas. E como disse, sabiamente, Marcos Jose Garcia de Paiva, "O rótulo (Internet, baixarias e vulgaridade) retrata o conteúdo do próprio texto." e dos demais textos que o autor pública. Este foi o famoso tiro no pé. Só ler (fora aqueles que apenas reproduzem informações, sem sua opinião, os que são raros), que irá perceber. continuar lendo

Com todo respeito ao seu contraditório, não vi confusão alguma no texto! Vi, sim, um texto direto, sem intenção de agradar e amealhar um contingente de cérebros mídia-guiados.
A internet, zona livre, é depositário de todo tipo de pensamento, e assim deve ser.
Mas, realmente... Mas, realmente... negar o incomensurável número de "posts" sem conteúdo algum, ou, não raros, com conteúdos vazios de sentido e aí, sim, confusos, contraditórios, rebocados por "comments" insossos, ofensivos, vulgares e nada edificantes fazem lama na interne, negar isso é desconhecer a realidade (ainda que virtual) .
Ainda bem que há espaços como este em que podemos ler textos excelentes e, ao mesmo tempo, debatermos, saudavelmente, com os mais diferente tipos de pensamentos.
O processo é dialético! continuar lendo

Pois é Professor. A internet é uma inovação que nos permite ouvir as milhões de vozes da caverna. Antes dela nada saía, só entrava através das sombras distorcidas projetadas pela TV (não a TV Cultura, que não pega bem), Mas o que me deixa angustiado é que, ouvindo atentamente essas vozes, tenho constatado que a realidade da nossa democracia está lá. Não aqui. continuar lendo

Verdade Sr. Wagner,

e já que estamos em ano eleitoral (bem que podiam unificar as eleições), esse (a Internet) é o ÚNICO instrumento que nós (povo) temos para ser-mos ouvidos pelos políticos. Alguém já tentou falar com um desses candidatos depois de eleito? Eu já, e digo parece que colocam uma barreira entre o povo e eles, é um tal de assessor disso, assessor daquilo que vc. não consegue falar com o próprio, quando na campanha até beijam criancinhas nas feiras livres, mercados e favelas.

Há exageros em textos publicados nas redes sociais ? Há, mas até nos jornais, revistas e tele-jornais das Tvs. também os há.Quando alguém do povo pública na Internet textos usando linguagem chula e mesmo com palavras ofensivas,deve-se levar em consideração (não é correto) que o povo está cansado de ser espezinhado por essa classe política, diga-se de passagem, uma das mais corruptas do planeta e já não mais suporta o fato de viver em uma "ditadura", já nem tanto mais disfarçada como no inicio do governo Petista.Quando vemos os "condenados" do mensalão fazerem o gesto com o braço levantado, qual é o sentimento que brasileiros honestos tem nesse momento? Provavelmente de ódio e impotência querendo mesmo esganar o dito cujo, então o que faz esse cidadão de bem? Pública textos nas redes sociais xingando e extravazando seu descontentamento para com aqueles ladrões do dinheiro público.Vamos censura-los por isso? Não....já que nem o poder judiciário foi capaz tirar esses maus elementos da vida pública, que continuarão afrontando a população tornando esses atos uma autentica roda viva.

"Aposentados e pensionistas do INSS, NÃO votem em candidatos do PT e partidos aliados, já são 12 anos de massacre contra nós". continuar lendo

Levino S.viso termina seu texto com a seguintes mensagem: "Aposentados e pensionistas do INSS, NÃO votem em candidatos do PT e partidos aliados, já são 12 anos de massacre contra nós".

Sr. Levino! Fica difícil os aposentados e pensionistas seguirem seu apelo. Afinal de contas foi neste período que tiveram aumento real da aposentadoria, para aqueles que recebem ou passaram a receber o piso.

Para quem não lembra, também foram nestes anos que foram tratados com mais humanidade no INSS.

Não quero desmerecer os demais candidatos, mas ser contra simplesmente por ser contra, em nada enriquece o debate, sem dizer que saiu totalmente fora do foco da questão.

Fica a dica. Podemos protestar contra qualquer partido ou candidato, mas vamos nos posicionar e comparar entre os que se apresentam sobre o que de fato fizeram seus partidos quando estiveram no poder, o que prometeram e não cumpriram e as velhas promessas que renovam, sem sequer saber como colocá-las em prática. continuar lendo

Cacá Diegues que me perdoe mas ele não precisa passar por isso. É só ele cancelar todos os seus E-Mails e desta forma também não receberá nada do que ele de informes políticos. Bem pior é aguentar esses políticos durante os 4 anos depois de elegê-los e você nem votou na peça rara. Aliás você não precisa procurar agulha no palheiro pois isto estará mais fácil de achar do que um político honesto e de caráter. continuar lendo

A internet pode ser bem utilizada, depende da cada um. Críticas a candidatos são ouvidas nas conversas do dia a dia. A internet é a expressão da sociedade. continuar lendo