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16 de Agosto de 2022

Fim do político profissional

Luiz Flávio Gomes, Político
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 8 anos

Os gregos, na antiguidade, chamavam de idiotés quem não participava da política, ou seja, quem egoistamente ficava isolado em sua casa, obcecado em suas mesquinharias, sem oferecer nenhuma contribuição para a comunidade, para apolis (cidade) (veja Savater, Política para meu filho). Desse idiotés no sentido grego deriva nosso idiota atual, que você sabe bem de quem se trata. Somos contra o político que faz da política seu único meio de vida, abandonando sua profissão. Ao mesmo tempo, temos que ser contra, sobretudo quando se trata de um jovem, quem não se interessa absolutamente nada pela política, nem sequer par criticá-la (que é a tarefa mais fácil de se realizar).

Lançamos uma campanha denominada fim do político profissional (veja www.fimdopoliticoprofissional.com.br ). Por político profissional entendemos o que abandona sua profissão para ocupar cargos eletivos eternamente, como no caso de José Sarney. Lutamos, dentre outras, por três coisas: 1ª) nenhum político pode deixar de exercer a sua profissão particular, compatibilizando-a com suas obrigações públicas; 2ª) nenhum político pode ser reeleito para o mesmo cargo executivo (salvo depois de uma longa quarentena) e 3ª) nenhum político pode exercer mais que dois mandatos consecutivos nos cargos legislativos (só podendo voltar depois de uma longa quarentena). José Sarney não teria exercido (nefastamente, diga-se de passagem) mais de 60 anos de vida pública se essa regra já estivesse valendo.

Mas por que acabar com o político profissional? Porque essa é uma das maiores fontes da endêmica corrupção no nosso país, sobretudo entre o político e o mundo empresarial e financeiro (os três formam uma troyka maligna quando atuam pensando exclusivamente nos seus interesses, em detrimento do povo). Para se entender quais são esses “interesses” basta parafrasear um influente (e desqualificado) político norte-americano (citado por Cristóbal Montes, 2014: 130), que dizia: “O que os homens de negócios [especuladores] não compreendem é que eu opero com os votos exatamente o que eles fazem com as especulações e os lucros ilícitos”.

O Brasil não necessita apenas dos movimentos horizontais (povo nas ruas exigindo ética na política, melhores serviços públicos etc.), sim, sobretudo, dos verticais, para extirpar da nossa cultura seus aspectos nefastos, incluindo seus fundamentos personalistas (herança ibérica) e aristocráticos (que conduzem a privilégios e mordomias, violando-se flagrantemente a igualdade entre todos). Nunca o Brasil será um país confiável se os velhos costumes, as crenças arcaicas e as ideologias desgastadas não forem dissolvidos, de uma vez por todas (a começar pelo voto). Nunca atualizaremos o país, de acordo com o mundo globalizado e técnico que vivemos, se a velha ordem colonial e patriarcal, dos senhores de engenho escravagistas, dos políticos corruptos clientelistas, não for revogada terminantemente (veja S. B. De Holanda 1995: 180).

Um político ficha-suja não deveria jamais poder concorrer a novas eleições (por um longuíssimo período). Faz muito mal para o Brasil a existência do político profissional (o que faz da política um meio de vida, reelegendo-se eternamente). O aprimoramento das nossas instituições passa pela proibição das seguidas reeleições. O velho sistema político está morto (e deslegitimado). Ocorre que o novo ainda não nasceu. É hora de lutar por profundas mudanças nos nossos costumes e tradições. Temos que promover uma lei de iniciativa popular para limitar a possibilidade de os políticos fazerem carreiras eternas na política.

Lutar pelo fim do político profissional (o que se perpetua nos cargos eletivos) significa lutar contra a corrupção, que tem nele uma das maiores fontes de irradiação. O político profissional (o que abandona sua profissão de origem para ocupar eternamente cargos eletivos, com todos os privilégios e mordomias) tem imperiosa necessidade de reeleição e essa necessidade de reeleição está para ele como a ganância desmedida está para o empresário e o banqueiro inescrupulosos e parasitários. Junta-se a fome com a vontade de comer. O político, no nosso sistema cultural, “naturalmente padece do vício de dar primazia às conveniências particulares em detrimento dos interesses de ordem coletiva. Isso já significa fazer predominar o emotivo sobre o racional. Por mais que se julgue achar o contrário, a verdadeira solidariedade só se pode sustentar realmente nos círculos restritos e a nossa predileção, confessada ou não, pelas pessoas e interesses concretos não encontra alimento muito substancial nos ideais teóricos ou mesmo nos interesses econômicos em que se há de apoiar um grande partido. Assim, a ausência de verdadeiros partidos não é entre nós, como há quem o suponha singelamente, a causa de nossa inadaptação a um regime legitimamente democrático, mas antes um sintoma dessa inadaptação” (Sérgio Buarque de Holanda 1995: 182-183).

Leia mais sobre o tema aqui: http://institutoavantebrasil.com.br/topicos/fim-do-politico-profissional/

Veja o vídeo aqui:

https://www.facebook.com/photo.php?v=342864202531743

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66 Comentários

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Há um livro de um filósofo brasileiro - eles existem - chamado Mario Sérgio Cortella cujo título é; Política para não ser idiota. Ilustra muito bem a importância de uma participação mais efetiva das pessoas no diaadia da "polis". continuar lendo

Sim eles existem, e são bons! continuar lendo

É clichê o que vou dizer mas, a educação de qualidade e as necessidades básicas devem preceder qualquer plano de otimização deste país, pois, a massa ignara que elege nem chega a perceber as manobras políticas das ratazanas que ela alça ao poder. continuar lendo

Amigos, a filosofia (pensamento) é necessária, mas a ação é imprescindível. Penso, ainda que seja como forma de protesto debochado e irreverente: Reivindico a troca de Janot por Jayes, pois, ñ haverá mudanças no Sistema Político e Jurídico se o MP não disser yes ao Estado de Direito. As ações e condescendências do MP e MPF parecem entoar o Reggae do Manêro, o povo não merece tantos fuleiros ocupando cargos nos governos. continuar lendo

Faturar em cima de político também é um meio de vida.
Virou cultura brasileira.
No fundo, torcem para que esse alimento nunca se acabe. continuar lendo

Os difamadores profissionais também. continuar lendo

Fim do político profissional, sonho de consumo de todos os brasileiros decentes.
Pena que é um câncer, acaba um volta outro, as vezes mais forte raizado nas misérias da corrupção.
Enfim, desistir jamais !!! continuar lendo

Explicai-me, ó poderoso guru, sabedor de todas as coisas. Quem não defende o fim do político profissional não é brasileiro, não é decente ou as duas coisas? continuar lendo

Prezado Carlos

Os países chamados de primeiro mundo, tem a estrutura e faz jus ao nome de ser, primeiramente pelo patriotismo.
Smj, quem é a favor do fim do político profissional, é brasileiro é decente, quem segue linha contrária, fica a seu critério, eu, mantenho minha posição.

abraços continuar lendo

Esqueceram-se da terceira, a indústria das vítimas de sistema. continuar lendo

O Prof. LFG sempre muito sábio em suas colocações. Já venho acompanhando os seus artigos aqui no JusBrasil sobre esse assunto e compartilhando lá no Facebook essa campanha contra o "Político Profissional" , para quem sabe nos livrarmos desse tipo de gente "nos representando" na administração do nosso país.
Porém tenho algo a dizer com relação a esse artigo em tese. Sou admiradora e seguidora do Ilustre Mestre Luis Flávio desde sempre (bom, pelo menos desde que eu entrei na Faculdade de Direito em 1997), o que não quer dizer que eu seja cega e otária para "engolir" tudo que ele diz como se não houvesse outra verdade ou pelo menos outra posição no mundo....., a parte inicial deste artigo me traz a tona a minha própria posição quando ao assunto - votar ou não.

Enquanto o Brasil for composto por gente da estirpe que aí está e da que ainda pretende ingressar ou reingressar sempre farei "campanha" contrária ao voto obrigatório! Uma Democracia não deveria te obrigar ir às urnas eleger ou não alguém, para mim isso não é Democracia, é qualquer outra coisa. Entre as maiores economias do mundo o Brasil figura como o único país em que o voto é obrigatório. Países como EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, Índia, Rússia, França, Itália, Canadá, México, Espanha entre outros, tem o voto facultativo e nem por são anti-democráticos (dados obtidos na Folha de São Paulo online – Para entender Direito, matéria “Voto Obrigatório no Mundo” de 18/10/2010 do Blog de Fernando Rodrigues) – daí a revolta ouvir sempre: “voto é cidadania”. Cidadania de quem? Muitos, como eu, acredito, dispensam esse tipo de cidadania. Não me creio idiota nem mesquinha por recusar-me a votar em alguém; eu, como todos os brasileiros, deveriam sim ter a opção de ir às urnas ou não, de votar votar ou não sem que o fato da recusa lhes trouxesse qualquer sanção (seja pagar 3 reais de multa ou ficar impossibilitado de tomar posse em concurso público). Por isso torço e compartilho para que essa campanha contra o político profissional se torne realidade em Lei, se assim for terão novamente essa, que o Senhor chamou indiretamente de "idiota", retornando as urnas, tentando eleger alguém para só assim me representar (hoje ninguém me representa) e a meu ver, como já disse antes, idiota, por isso, é que não sou. continuar lendo

Fazer campanha contra o voto obrigatório também é política. É a essência da política, por isso escapou de ser (risos) continuar lendo

Que bom que escapei der ser Sr. Rafael...., já o Sr. com certeza não escapou e nem escapa porque vota nos idiotas que aí estão, logo é idiota e da mesma laia. ...., outra coisa, quando eu disse campanha coloquei a palavra entre "......."....sabe o que significa? Enfim, nem vale a pena continuar. continuar lendo

Eu tb sou contra o voto obrigatório! Nêgo vai ter q sambar muito pra levar a gente às urnas... continuar lendo

Jovem não entendo sua ira, visto que minha frase foi de apoio. Me desculpe por qualquer coisa, eu sou idiota mesmo. Bom dia, boa tarde e boa noite! continuar lendo

Eu sempre defendi que um vereador, deputado ou senador apenas pode receber um salário mínimo. Apenas os patriotas serão candidatos. As despesas do exercício do mandato serão pagas mediante comprovação dentro de uma tabela determinada. E é só.... esses políticos devem continuar com suas carreiras fora do governo. continuar lendo

Ferdando, a história nos mostra o contrário.
No início da política deste país, os congressistas não recebiam salários, o que fazia com que apenas pessoas ricas pudessem concorrer, já que um cidadão pobre não podeira deixar o seu ofício para se candidatar sem nada ganhar.
Outro ponto é que um legislador sem com dificuldades financeiras se torna mais propenso a "vender facilidades", seria um prato cheio para os Lobbistas. continuar lendo