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17 de Outubro de 2019

Caos nos transportes: luta de classe ou "guerrilha urbana"?

Luiz Flávio Gomes, Político
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 5 anos

São Paulo viveu ontem (20/5) mais um dia infernal nos transportes públicos (greve-surpresa de motoristas e cobradores de ônibus, que paralisaram, inclusive agressivamente, várias vias públicas da cidade). Isso já tinha ocorrido no RJ há poucos dias, onde também repercutiu nacionalmente outra greve, a dos garis. Ponto comum entre elas: os sindicatos respectivos negam qualquer tipo de participação nesses deletérios acontecimentos, alegando que tudo parte da iniciativa de grupos dissidentes dentro de cada categoria. O cidadão, que está sofrendo na própria carne as maléficas consequências dessa caótica humilhação quase diária, sempre fica procurando entender o que está ocorrendo com o país, que vive uma conturbação mais ou menos generalizada.

Seria, como afirmou o prefeito de SP, uma "sabotagem, com tática de guerrilha"? Ou seria uma luta de classe, por melhorias salariais e nas condições de trabalho? Se se trata de uma guerrilha, seria ela promovida por um grupo rebelde incendiário (tipo "black bloc") que estaria conspirando (teoria da conspiração) e jogando suas energias no "quanto pior, melhor"? Ou seria uma guerrilha de grupos dissidentes dentro de cada categoria profissional, que já não reconhecem nenhuma legitimidade nos sindicatos "oficiais" (tidos como peleguistas, por fazerem acordos espúrios com os "patrões")? Ou seria talvez uma "ação orquestrada" dos donos do capital (dos capitalistas detentores dos meios de produção), que estariam insatisfeitos com as tarifas dos ônibus? Ou ainda seria uma estratégia dos próprios sindicatos, que não querem aparecer nem ser sancionados e estariam então fazendo um deplorável jogo duplo consistente em acordos públicos com os "patrões" e paralisações violentas "por debaixo do pano"?

Juridicamente falando, toda luta de classe está amparada pela Constituição brasileira (direito de manifestação, direito de reunião etc.), enquanto não haja excessos. De outro lado, se se trata de uma "guerrilha" (ações criminosas), o problema passa a ser policial e da Justiça, que atuam precariamente. A indefesa e esgarçada população não saberá oficialmente (tão cedo, pelo menos) a verdade (como até hoje não tem nenhuma explicação veraz sobre as destruições de centenas de ônibus em todo território nacional). Por quê? Porque o nosso é um Estado invertebrado e classista, que historicamente não consegue mesmo ou não deseja esclarecer a população da real e calamitosa situação do país. Se o Estado brasileiro não fosse, por absoluta incapacidade das nossas elites governantes e dominantes, predominantemente um gestor/executor de difusa política de mortandade, prontamente arquitetaria medidas preventivas de eliminação de conflitos e preservação de vidas. Mas não criamos, desde 1822, um Estado gerenciado por governantes comprometidos com a construção de uma próspera e equilibrada nação, fundada em valores nobres. Todo o contrário.

Na medida em que o esquálido Estado brasileiro (desarticulado, desnorteado e desorientado) se mostra titubeante, deixando de informar a população o que está verdadeiramente ocorrendo, incrementa-se a fundada desconfiança (sociológica) de que efetivamente vivemos uma demolidora "sociedade de massas rebeladas" (Ortega y Gasset), que é o mais diabólico veneno de contaminação e destruição da convivência humana, posto que, quando nos entregamos voluntariamente às vulgaridades do pensamento das "massas", não reconhecemos mais nenhuma liderança nem tampouco normas (jurídicas e éticas) orientadoras dos nossos comportamentos individuais ou coletivos. Nas sociedades de massas rebeladas cada grupo passa a atuar isoladamente e de forma direta, sobretudo por meios violentos (nos últimos 14 anos, 16 líderes sindicais na área dos transportes foram simplesmente assassinados), para a satisfação dos seus interesses, sem reconhecer a existência de outros grupos com os quais deveria civilizadamente dialogar e buscar consensos, que são os que promovem eficazmente sustentáveis progressos individuais e coletivos. Se esse tétrico diagnóstico sociológico não for equivocado, não há como deixar de reconhecer que, por absoluta incompetência mental e organizacional, estamos cavando diariamente nossa própria cova e inviabilizando o futuro das próximas gerações.

23 Comentários

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Porque esses motoristas e cobradores não saem das garagens, (e sem prejudicar o trabalhador que não tem nada a ver com seus problemas em relação aos salarios baixos que a empresas os sujeitam), e liberam para que as pessoas subam sem passar pela catraca? Será que é porque eles foram instruidos que "assim não vale"? continuar lendo

EITA.. Que idéia genial.. traria mais resultados, com certeza.. continuar lendo

Eu diria que isso reforça a tese de que se trata de um "lockout", ou seja, manifestação de caráter patronal - ainda que disfarçado. continuar lendo

Bingo, Katz22 continuar lendo

Interessante falar em Sociedade das Massas rebeladas, e sobre a obra destacaria a seguinte citação "A rebelião das massas pode, com efeito, ser 'trânsito' de uma nova e sem par organização da humanidade, mas também pode ser uma catástrofe no destino humano.". Esse estado de anarquia que se estabelece em nosso país é o colosso do individualismo. Não existe luta de classes numa perspectiva marxista, as pessoas sabiam o que estavam fazendo (ou ao menos achavam que sabiam), tinham uma doutrina a seguir, tinham um norte, a luta era contra um sistema dominante. Acho muito ultrapassada essa maneira dualista de enxergar as contendas sociais, como se fosse sempre uma luta entre opressores e oprimidos. Para mim esse tipo de protesto é uma tremenda sacanagem com os mais pobres, porque são sempre eles os maiorse prejudicados. continuar lendo

Professor, abandone essa ideia de luta de classes. Isso é coisa de marxista. O que há são pessoas descontentes com o atual cenário político econômico. E se tem algo errado tem que mudar, não é?? Vamos começar tirando essa quadrilha do poder. Caso contrário, veremos manifestações como na Venezuela por aqui. Ai será tarde. continuar lendo

Luis Claudio, boa tarde.
De fato, as postagens desse professor sempre pareceram ideias de sociopata catastrófico cujo ego é erudito adestrado (memórias "tatuadas" por aceitação passional sem questionamento algum).
Porém, o que poderia um povo desalentado, deseducado, desqualificado, indolente e arregimentado por facções doentias fazer para limpar esse poder sujo e apodrecido? continuar lendo

Entendo que toda a sociedade tem que fazer uma mea culpa quanto a anarquia política que desce rampa abaixo o planalto. Isso porque seus cidadãos, que já nascem com pregüiça, como dizia Macunaína, ao declinarem do poder de eleger políticos honestos e competentes, se submetem a serem governados por qualquer um. Também, uma grande maioria vota em troca de algum favor ou benefício pessoal. Não entende que essa atitude não apenas prejudica os demais, mas a ela própria em médio prazo. Brasil, para quem ama o Brasil. continuar lendo