jusbrasil.com.br
28 de Fevereiro de 2020

Nós e o dinheiro: quem é escravo de quem?

A acumulação de riqueza se transformou num prazer que se esgota em si mesmo.

Luiz Flávio Gomes, Político
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 6 anos

A característica comum das três fases constitutivas do capitalismo (mercantilista, industrial e financeira) consiste tanto na capacidade de criar empregos como na de não incluir na sua dinâmica estrutural grandes parcelas da população: do capitalismo comercial ou mercantilista ficaram de fora segmentos da sociedade rural-estamental; do capitalismo industrial, que disseminou o assalariado, ficaram excluídas milhões de pessoas sem qualificação técnica ou que se recusavam ganhar salários de fome; também o aumento da produtividade contribuiu bastante para engrossar a classe dos excluídos. Com o capitalismo financeiro e suas crises (particularmente a de 2008) tornou-se indiscutível um novo patamar de insegurança no trabalho (com raríssimas exceções, sendo o Brasil, por ora, é uma delas): há milhões de desempregados, sub-empregados, empregados temporários, meia jornada e precariados. Isso significa menos qualidade de vida e aumento (ou não diminuição) dos que passam fome diariamente no mundo todo.

Por que tanto desequilíbrio e enorme concentração de riqueza nesta terceira etapa evolutiva do capitalismo? Dentre tantas outras razões, merece prioritária consideração o modo como o dinheiro passou a ser valorado (Regnasco: 2012, p. 67 e ss.), em muitos países: deveria ser um meio, mas se transformou em um fim em si mesmo. Com base numa clássica distinção aristotélica, o dinheiro deixou de constituir a base da economia dirigida à produção de valores de uso para se transformar em crematística, ou seja, na busca incessante de produção e de riqueza por puro prazer. A confusão levou muitas pessoas a afirmarem que o único fim da economia é a acumulação de dinheiro até o infinito (Regnasco: 2012, p. 67). Essa é a lógica que governa a maior parcela do mundo capitalista financeiro atual, que vai muito além da mera acumulação de riqueza (objetivo de lucro) como meio de prosperidade do próprio capitalismo. A acumulação de riqueza se transformou num prazer que se esgota em si mesmo.

No capital financeiro o capital se reproduz dispensando-se o lado produtivo. São milhões de transações diárias, sem envolver qualquer tipo de produção industrial ou mesmo uma troca comercial. É o dinheiro gerando mais dinheiro sem tocar no comércio ou na indústria (juros, compra e venda de ações, especulações nas bolsas, bônus etc.). O dinheiro, que hoje circula na velocidade da luz por meros impulsos eletrônicos, prescindindo-se até mesmo da sua materialização (em metal ou papel), é uma realidade mais poderosa que a produção de bens e de empregos. Poder simbólico (que deixou de ser meio para se converter em fim). Tudo virou ou está virando mercadoria (os serviços públicos, a saúde, a educação, a arte, o conhecimento). Estamos sendo socializados de acordo com a sociedade tecnocapitalista.

Produtividade e rentabilidade são agora as instâncias “morais” de todas as nossas ações. O mundo do cinema, das artes, da música e do teatro virou “indústria cultural”. Gastos com educação viraram investimentos. Logo, ela existe para dar dividendos assim como para formar “capital humano”, “competitivo”, “expansivo”, “ultrassônico” e “nanotecnológico” (Regnasco: 2012, p. 69). Absoluta sujeição psicológica e ideológica. Nada é para ser questionado, sim, interiorizado. Eliminação de resistências. Cultura homogênea, sociedade conformista, cidadania convertida em “força produtiva”, gente transformada em “recursos humanos”. E tudo pelo simples processo de universalização impessoal do novo valor do dinheiro, que passou a existir só para gerar mais dinheiro, não mais empregos, progressos, desenvolvimentos. Poder disseminado que passa por todos os poros, sob a aparência de autonomia individual, de decisões pessoais. Daí a concentração absurda de riqueza (85 pessoas possuem capital equivalente a metade do capital do planeta). Com exceção de uns pouquíssimos países que preservaram o modelo do capitalismo distributivo (Dinamarca, Suécia, Noruega, Japão, Holanda, Bélgica etc.), existe alguma democracia capaz de enfrentá-los?

Leia meus artigos aqui: Instituto Avante Brasil

4 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

Muito bom! Sem falar na "Era dos Abusos" cometidos pelas instituições financeiras, principalmente quanto a onerosidade excessiva das taxas de juros cobrados em empréstimos, sob a permissão tácita do Poder Legislativo e do Poder Judiciário, que criam leis e emendas constitucionais que os favorecem e decisões e súmulas judiciais que os protegem. continuar lendo

Nossa, matéria MUITO boa, tanto na análise, como no uso da linguagem, acessível a qualquer pessoa q apenas saiba ler. Precisamos de mais artigos dessa monta Dr.; as classes média, A e B não estão entendendo q o dinheiro NÃO é pra ser acumulado - como dizia Rita Lee: "quanto mais tem, mais quer". O dinheiro perdeu os seu objetivo de valorar os produtos, como um meio de troca e passou a ser um fim em si mesmo, mas o q é mais grave: virou um 'método' de manipular a autoestima, seja de quem o tem, seja de quem não o tem; um meio de valorar o ser humano pelo q tem e não pelo q é. Não somos o q temos - este caminho é desumanizante e não leva a lugar nenhum. Talvez isso explique o porquê de tanta violência. continuar lendo

Mais uma lúcida análise do que está ocorrendo no mundo feita pelo professor Luiz Flávio, parabéns. continuar lendo

Não há o que duvidar de tão clara abordagem sobre tão importante problema,entretanto,várias são as advertências e não se vê uma formula de escapar dessa arapuca.O fato de gostarmos da maneira como vemos narrado não traz solução alguma, somente juntando-se a um "recipiente"explosivo que tem mostrado a perda de valores em que a sociedade esta mergulhada. Assim percebe-se que não há outro caminho senão aguardar que o resultado deste domínio se extingua ao promover o seu próprio suicídio. continuar lendo