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24 de Agosto de 2019

Geração Nem-Nem+: uma bomba-relógio

Quase 10 milhões de jovens brasileiros (15 a 29 anos) no Brasil não trabalham nem estudam. É um exército de reserva que pode ser manobrado para o bem ou para o mal.

Luiz Flávio Gomes, Político
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 5 anos

Quase 10 milhões de jovens brasileiros (15 a 29 anos) no Brasil não trabalham nem estudam. É um exército de reserva que pode ser manobrado para o bem ou para o mal. A classe dominante brasileira sempre teve medo de uma rebelião dos escravos (Darcy Ribeiro). Mas são os antagonismos sociais (desigualdades) do nosso capitalismo selvagem e extrativista que podem um dia explodir por meio de uma violência coletiva devastadora. O IBGE (na Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio de 2012) apontou que os jovens que não trabalhavam nem frequentavam a escola, os chamados de “nem-nem”, representavam 19,6%. Isso significa 9,6 milhões de jovens, de uma população estimada para o período de 48, 8 milhões de jovens, na faixa etária de 15 a 29 anos.

O problema, aliás, é mundial. O relatório Tendências Mundiais de Emprego 2014 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que o desemprego entre os jovens continua aumentando. Em 2013, 73,4 milhões de pessoas entre 15 e 24 anos estavam sem trabalho – quase 1 milhão a mais do que no ano anterior. Isso representa uma taxa de desemprego juvenil de 12,6 %, mais do que o dobro da taxa de desemprego geral de 6,1%. A pesquisa revelou que o número de jovens que não trabalham nem estudam cresceu em 30 dos 40 países pesquisados. Em 2013, 1 milhão de jovens perderam seus trabalhos.

Boa parcela desses milhões de jovens que não estudam nem trabalham conta, no entanto, com estrutura familiar (é o grupo Nem-Nem acolchoado). O restante é desfamiliarizado (não tem uma constituição familiar sólida nem amparo social, como é corrente nos países de capitalismo selvagem e/ou concentrador: Brasil, EUA etc., que nada têm a ver com os países de capitalismo evoluído e distributivo, civilizados, como Dinamarca, Noruega, Japão, Alemanha, Islândia etc.).

Esse grupo desfamiliarizado (Nem-Nem+), nos países de capitalismo selvagem e extrativista, é uma verdadeira bomba-relógio, em termos sociais, de potencial criminalidade e de violência. Por quê? Porque os fatores negativos começam a se somar (não estuda, não trabalha, não procura emprego, não tem família, não tem projeto de vida...). Se a isso se juntam más companhias, uso de drogas, convites do crime organizado, intensa propaganda para o consumismo, famílias desestruturadas etc., dificilmente esse jovem escapa da criminalidade (consoante a teoria multifatorial da origem do delito). Milhões de jovens, teoricamente, estão na fila da criminalidade (e nossa indiferença hermética não se altera um milímetro com tudo isso).

Diferentemente dos países civilizados de capitalismo evoluído e distributivo (que teriam todos esses jovens dentro da escola), nosso capitalismo bárbaro não se distingue pela educação de qualidade para todos, pelo ensino da ética, pelo império da lei e do devido processo e pela alta renda per capita. O Brasil, aliás, ocupa a vergonhosa 85ª posição no ranking mundial do IDH (índice de desenvolvimento humano). Estamos vivendo uma grave crise intergeracional. A cada dia é “roubado” o futuro de uma grande parcela das gerações mais jovens. Quando as esperanças desaparecerem completamente, o risco é de eclosão de uma grande explosão local e/ou mundial de violência.

*Colaborou Flávia Mestriner Botelho, socióloga e pesquisadora do Instituto Avante Brasil.

45 Comentários

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Muitos jovens não trabalham por que nossas Leis não permitem, o que leva as empresas a não contratarem parte desses jovens já que são penalizadas e podem até ter seu empreendimento fechado por que a fiscalização é forte. Com isso esses jovens ficam a disposição da Industria do Crime, que na maioria são chefiados por quem elabora as Leis e não há fiscalização por parte do Estado para tal.
Sou de família humilde e comecei a trabalhar com 11 anos, aos 13 fui trabalhar de office boy em uma empresa e lá fiquei por 30 anos, saindo em 2009 para montar meu próprio negócio. Em 1989 retomei os estudos e em 2003 me formei em Administração de Empresas e em 2012 formei em Ciências Contábeis. Com tudo isso, hoje sou penalizado, tenho 49 anos e contribuo com o teto máximo para o INSS a mais de 20 anos, hoje (4.359,00). Já posso me aposentar se quisesse, porém, devido a idade receberia um salário de aproximadamente 1.900,00. Não me arrependo, pois, foi o trabalho iniciado com 13 anos que me possibilitou ser o que sou hoje, bem como todos de minha família. O trabalho não prejudica ninguém, pelo contrário, ele constrói uma base e estrutura para o futuro das pessoas, mas enquanto continuarem a proibir os jovens de trabalhar a tendência é cada vez mais expor nossos jovens aos olhos dos agenciadores que buscam quem não está fazendo nada, prova disso são as noticias diárias nos meios de comunicação da quantidade de jovens até 18 anos envolvidos com o crime organizado e nenhuma penalização é aplicada. continuar lendo

Excelente colocação, agora um questionamento, por que um jovem não pode trabalhar e vemos inúmeras crianças trabalhando na Tv como cantores, atores e outros meios artísticos? será que isso também não é exploração infantil? continuar lendo

Em minha avaliação, é preciso considerar que muitos jovens são qualificados profissionalmente mas não encontram oportunidades no mercado de trabalho para exercem um trabalho honesto e digno.
Infelizmente, o mercado de trabalho está saturado de todas as profissões e não consegue mais absorver a crescente demanda de jovens formados que desejam trabalhar honestamente.

O professor LFG está certo ao afirmar que esse exército de reserva pode ser manipulado para o mal, pois a história nos revela que quando a conjuntura sócio-econômica de um país priva a sociedade do básico (como emprego, por exemplo), existem revoltas violentas, com a possibilidade até de eclodir um guerra civil.

Vejo, diariamente, muitos jovens inteligentes e cheios de vida entregando currículos nas empresas, prestando concursos públicos, mas no final amargam derrotas dolorosas, tornando-se pessoas frustradas e sem esperanças para o futuro, que buscam nas drogas lícitas, como o álcool, ou nas ilícitas uma válvula de escape de suas dores, frustrações e derrotas.

Não demorará para que esses jovens se reúnam em grandes manifestações violentas contra a elite dominante desse país para reivindicarem condições dignas de vida. continuar lendo

estamos criando uma geração de nem-nem por causa dos diversos programas sociais. A solução é ensinar a pescar continuar lendo

Depois das bolsas, família, gás, isso e aquilo, nas regiões mais pobres do Brasil, ficou difícil se contratar empregados pouco qualificados. Em grande parte, eles preferem meio salário mínimo vadiando a ganhar um salário pelo trabalho, infelizmente. continuar lendo

Infelizmente proibiram o trabalho infantil antes dos 16 anos, ocorre que, ao chegar a idade para a iniciação ao trabalho, dada as suas próprias necessidades, pensam em ganhar salário de um adulto categorizado, assim é que, não conseguindo, preferem a ociosidade, quando não, preferem o submundo do crime que dá mais do que trabalhar como peão sem profissão. continuar lendo

Seria bom se o livro: Pai Rico Pai Pobre, o qual li duas vezes e gostei demais, fosse adotado como leitura obrigatória nas escolas, como exemplo para quem quer começar a trabalhar bem cedo ou produzir de forma inteligente o seu patrimônio. continuar lendo

Comentários fantásticos que observei aqui.

É um absurdo saber que um jovem menor de 16 anos pode cometer um crime e não ser punido mas não pode trabalhar legalmente pelo risco do seu empregador ir a julgamento.Não que esteja apoiando o trabalho infantil mas é necessário perceber a necessidade social da população.

O que seria a juventude brasileira, hoje invalidada por seu próprio estatuto, caso estivesse tendo as politicas publicas a seguir?
- Profissionalização.
- Educação Competitiva.
- Conscientização cultural voltada pra honestidade.
- Oportunidade de trabalho para o jovem que quer ou que precisa.

Temos aí, que não são os jovens que faltam com o interesse, mas sim os governantes que fogem da responsabilidade de criar um país forte socialmente. continuar lendo

Os menos de 16 e maiores de 14 anos de idade podem sim atuar como aprendizes, contanto que não seja em trabalho insalubre, perigoso e noturno, com carga horária adequada à sua condição pessoal e estudantil. continuar lendo