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24 de Agosto de 2019

Mortes no trânsito e “os planos de Deus”

Luiz Flávio Gomes, Político
Publicado por Luiz Flávio Gomes
há 6 anos

Com um porsche em alta velocidade (116 km/h) um engenheiro matou uma advogada. E disse: “Estava nos planos de Deus”. O Brasil é um dos campeões mundiais em mortes no trânsito (mais de 42 mil, em 2010). Montesquieu, Beccaria e todos os iluministas diziam, no século XVIII, que “causas de atos indesejados” são as leis injustas assim como a existência de humanos irracionais, supersticiosos e “não ilustrados”. O que mais existe no Brasil, no entanto, é gente pouco ilustrada (3/4 da população não sabem ler ou escrever ou não entendem o que lê ou não sabem operações matemáticas mínimas – pesquisa Inaf). As mortes no trânsito, de qualquer modo, são geradas por todos (ilustrados ou não ilustrados).

Somos rigorosos e exigentes com o Estado. Cobramos dele duramente o cumprimento dos seus deveres (de fiscalização, de engenharia das estradas, de primeiros socorros e de punição). Mas normalmente descuidamos dos nossos. Ato típico de povo mal educado para a cidadania, ou seja, muito pouco domesticado (como dizia Nietzsche), independentemente da classe social. Dirigimos depois de beber ou em alta velocidade e atropelamos pedestres e ciclistas nos julgando “ases no volante” e protegidos por forças superiores. A cultura da irresponsabilidade está impregnada no nosso DNA. Não somos treinados para a prevenção. Não abrimos mão dos nossos prazeres (beber, falar ao celular, correr etc.) para privilegiar nossos deveres de cidadania e convivência coletiva. Estatisticamente, 75% dos acidentes derivam de falhas humanas (destaque para a imprudência e o álcool). Nenhuma morte como “plano de Deus” aparece na estatística.

O brasileiro é pacato (dizem), salvo na direção do veículo, na violência machista, na agressão dos pais contra as crianças, nas ofensas aos idosos, nos estádios de futebol, nas manifestações... O Detran de SP, por exemplo, só investe 0,05% do dinheiro de multas em educação para o trânsito (Folha de S. Paulo de 01.08.12, p. C1). Isso não escandaliza. Também nós não nos educamos, muitas vezes nem sequer para a vida (do contrário, ¾ da população não seriam analfabetos ou precariamente alfabetizados).

Mortes no trânsito e “os planos de Deus”

A conscientização, a responsabilidade individual, a noção de cidadania e o respeito ao outro são a solução para menos mortes no trânsito. Quem já alcançou isso? Os países adeptos do capitalismo financeiro evoluído e distributivo (Dinamarca, Coreia do Sul, Noruega, Japão, Canadá etc.). Colhem os bons frutos da educação universal, têm baixíssima violência, trânsito seguro e alta qualidade de vida. Nos países de capitalismo financeiro selvagem e extrativista, moralmente degenerados, ao contrário, prospera o ignorantismo e a superstição (não a responsabilidade individual, o imperativo dos deveres e o aprimoramento ético). O homo democraticus do século XXI, nesses países, abusa da sua vulgaridade e irresponsabilidade.

Temos ojeriza a obedecer às leis assim como à igualdade no trânsito. Nunca imaginamos que o “vermelho” é “vermelho” para todos (ricos e pobres, pretos ou brancos). Na nossa cultura hierarquizada, os membros das classes superiores (A e B) se sentem no direito de ter privilégios frente ao sistema legal (DaMatta). Concordamos que os motoristas irresponsáveis sejam punidos severamente, mas não observamos as regras de trânsito (ultrapassamos em lombadas e andamos no acostamento e na contramão). A possibilidade de um acidente aumenta 23,2 vezes quando se digita uma mensagem ao volante (Valor Econômico de 30.03.12, p. D8): isso é corriqueiro e ainda trafegamos sem cinto de segurança, com luzes queimadas ou freios não revisados. Observar as leis no Brasil, como se diz, é coisa de gente idiota, tola, inferior, sem relações sociais e sem os capitais distintivos de classe (econômico, salarial, cultural, social, emocional, moral/ético e familiar). Nós, tolos não somos; somos imbecis (muitas vezes).

Twitter: @professorLFG

153 Comentários

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É muito mais fácil culparmos o poder público pelas más condições em que vivemos, digo pela falta de Educação, sistema de saúde eficiente,alimentação, trabalho, moradia, segurança, políticas sociais efetivas, enfim dinheiro público aplicado regularmente. Mas, então, a quem culpar a nossa falta de educação?
Fazer leis neste País é tão fácil quanto apertar a descarga de um vaso sanitário. Cumprir leis então? isso anda fora de moda, menos no mundo da "Alice" (aquela do país das maravilhas) .... continuar lendo

Caio Prado Junior já afirmava que o Brasil não foi constituído como nação e sim como Empresa. O início do discurso foi muito parecido com a infeliz colocação de JFK, quando sugeriu que fosse "dada a democracia ao povo". Ora, não se pode dar a alguém o que já lhe pertence, tampouco exigir de alguém o que nunca lhe foi dado. continuar lendo

Generalizações são injustas e perniciosas, trazem a reboque toda demagogia inerente as falsas vítimas que insistem em afirmar que a inépcia do governo reflete o retrato de uma nação. Talvez o seja em parte, mas certamente o brasileiro, humilde, rude, iletrado, mesmo com todos os defeitos que pode apresentar em sua postura, é mais digno que muitos de seus governantes. Poderia um cidadão deste país se respaldar nos exemplos de conduta de seus representantes políticos? Se assim fizesse, este caos, que alude o autor, seria, com certeza, muito pior. Elogiar a civilidade de países como: Dinamarca, Coreia do Sul, Noruega, Japão, Canadá, pouco contribui, são realidades históricas e econômicas diferentes, tal comparação serve apenas para depreciar o país e o povo brasileiro do qual o autor faz parte, presumo. Como bem lembrou Joabe dos Santos Pedroso, em seu comentário: "...não se pode dar a alguém o que já lhe pertence, tampouco exigir de alguém o que nunca lhe foi dado.". continuar lendo

Por mais que esta realidade seja triste, sou obrigado a concordar. Não vejo como simples generalização. Realmente não adianta nada o Estado investir em educação se o cidadão não quer se educar. Estudei em escola pública a vida inteira, consegui uma bolsa integral na faculdade sem ajuda de cursinhos particulares e posso dizer que, por mais que o Estado seja falho e precise mudar, o mais importante sempre foi minha atitude como cidadão que se esforçou para fazer o correto e tirar proveito daquilo que me foi ofertado. Sem o desejo de me vangloriar ou defender o atual sistema de governo, o que quero dizer é que a facilidade de se culpar o Estado inerte que temos é muito maior do que assumir a culpa por nossas atitudes. continuar lendo

Luiz Otavio: O povo que escolhe seus representantes, há de se encontrar uma alternativa à democracia, já que nossa nação não tem a menor capacidade de eleger representantes. continuar lendo

Prezado Paulo Miranda, concordo "ipsis litteris", com sua frase, "O povo que escolhe seus representantes...", no entanto, se entendi o restante de seu comentário, compreendo que no mundo em que vivemos, ainda não foi inventado um sistema de governo que seja mais justo ou melhor que a democracia e que o voto constitui a forma justa de fazê-lo. No meu comentário acima não afirmei que descordava do artigo do Prof. Luiz Flávio Gomes, afinal o que ele escreveu, citando inclusive as fontes, confirma a verdade e deve ser observada, contudo, entendo que tal artigo é por demais severo, criticar a conduta dos brasileiros seja no volante ou no que tange ao seu comportamento civil e social, é uma praxe de muitos autores, mas que no meu humilde entender, pouco valor agrega as causas em pauta, claro que carecemos de mudanças e profundas, porém, não será essa forma de apresentar os problemas da nação que irá modificar a realidade do dia para noite, é necessário tempo e dinheiro para investir nessa educação, e principalmente atitude. Veja o comentário do Rafael Vitor abaixo, eu e várias outras pessoas tiveram galgar os degraus da vida com dificuldade e luta. Hoje tenho um automóvel, não sou melhor que ninguém, mas não me incluo na vala comum que o Professor colocou todos os motoristas ao afirmar: "A cultura da irresponsabilidade está impregnada no nosso DNA.", frases como esta correspondem a dizer: "pau que nasce torto morre torto". Mesmo que meu pensamento não reflita grande parte da opiniões, como se vê nos comentários aqui postados, sou otimista, ainda acredito na boa “formação” do caráter do homem e sua relevância no seu papel na construção de nossa sociedade. continuar lendo

"Elogiar a civilidade de países como: Dinamarca, Coreia do Sul, Noruega, Japão, Canadá, pouco contribui, são realidades históricas e econômicas diferentes, tal comparação serve apenas para depreciar o país e o povo brasileiro do qual o autor faz parte, presumo."

Luiz Otávio, as realidades históricas e econômicas são diferentes justamente pelas atitudes e decisões tomadas, ao longo do tempo, por exemplares cidadãos dessas nações. Já não seria hora de tomarmos esses modelos como bem sucedidos e tentarmos seguir os passos que deram certo? Entender que "o Brasil é diferente por isso e aquilo" e simplesmente aceitar essa situação não é uma atitude construtiva, é um fatalismo que só nos afundará mais ainda no buraco em que estamos. continuar lendo

Temos que melhorar nosso trânsito, claro, basta ver o número de acidentes e óbitos para se convencer, mas também temos que dar educação, comida, saúde e abrigo àqueles que tem fome de TUDO, são obrigações dos gestores públicos, é para isso “também” que o governo arrecadam impostos dos contribuintes, o problema é que medidas desta natureza são muito pálidas ou insuficientes para dirimir o problema. A reconciliação do homem com homem, não só na barbárie do trânsito, deveria ser alvo de uma campanha mais abrangente não apenas por parte do governo, temos instituições sociais e empresas que poderiam ajudar a fomentar isso. Por enquanto essa missão é particular, algumas iniciativas são meramente íntimas e devem partir do âmago da pessoa, sendo levadas a cabo individualmente, como uma meta, algo a ser considerado com mais austeridade por qualquer pessoa que objetive melhorar a si mesma seja trânsito ou na vida. Apesar do cenário não ser dos mais promissores, quando a tarefa atribuída é individual, as chances de sucesso se tornam diretamente proporcionais ao esforço empreendido para realizá-la, não é assim que fazemos com nossas vidas profissionais; então, uma vez consciente dessa possibilidade, seja homem ou mulher, qualquer pode - se quiser - empenhar-se nessa luta e melhorar, podendo ser cada vez melhor. Sabendo que se quisermos, o dito popular, “pau que nasce torto morre torto”, não passa de um estigma restrito ao reino vegetal. continuar lendo

Matou a pau. Continuamos a ser o país do "você sabe com quem está falando?" Não tenho ilusões. Sem educação, de berço, fica cada vez pior. continuar lendo

Muito bom!...falou tudo!!!!! continuar lendo

Repare que, sobretudo a mídia, sempre culpa a falta da fiscalização, a falta de repressão. Mas, poxa vida, o ânimo de agir corretamente, de obedecer às leis, é interior, parte de dentro da pessoa.

Será que deixamos de cometer ilícitos por causa da ameaça da sanção? Ou será que, antes disso, emitimos juízo de valor que, internamente, reprova e abomina a conduta proibida? continuar lendo

Cedido que grande parte do povo brasileiro deixa de cometer alguns ilícitos por conta do juízo próprio, no entanto, outra parcela da população, e infelizmente, a esmagadora maioria, somente freia suas condutas irresponsáveis e ilegais por puro "medo" das sanções impostas. E um dos maiores exemplos que atualmente podemos observar é o crime de embriaguez no voltante. continuar lendo

O problema é social: falta de educação e de respeito ao próximo. A educação que falta no trânsito é a mesma que falta àqueles que sujam as vias públicas, degradam o meio ambiente, desrespeitam os idosos, as diferenças sociais, etc. É olhar para si com um egocentrismo aguçado ao ponto de não se preocupar com a vida alheia, ceifando-a em pleno ato irresponsável e imprudente como na maioria dos casos de mortes no trânsito. E depois, em péssima tradição humana, delegar a "culpa" a um terceiro, e, por que não a Deus atribuindo-lhe a vontade maior?? continuar lendo

Parabéns Joabe dos Santos Pedroso, seu comentário conseguiu ser melhor que o texto. rsrsrsrsrsrs continuar lendo

Imagina meu caro, quem o publicou é infinitamente mais gabaritado. Todavia é humano como todos nós e sob o meu humilde ponto de vista foi infeliz em algumas colocações, principalmente ao citar Nietzche, como ja observou a colega Liz Costa. continuar lendo